A alternativa serve de arreio para motivar o chute, mas não há garantia de que será seguida; a qualquer momento, você pode mudar; tudo parece volátil. Não é fácil, mas é melhor do que ficar imaginando como seria.
terça-feira, 14 de junho de 2011
9 Dicas pra quem pretende chutar o balde
A alternativa serve de arreio para motivar o chute, mas não há garantia de que será seguida; a qualquer momento, você pode mudar; tudo parece volátil. Não é fácil, mas é melhor do que ficar imaginando como seria.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
A charlatã
A senhora Rodriga vivia das doações dos seus clientes e era conceituadíssima. Esse cenário amistoso começou a sofrer mudanças no final da década de noventa. A partir desse período, segundo o jornal da província de Cafundó, os desentendimentos entre dona Rodriga e seus clientes tornaram-se ações judiciais, por conta do abuso que a senhora tomou de toda a clientela, que só lhe demandava:
“Se eu mudar de profissão, vou ganhar dinheiro, como ganho hoje?” Essa era uma das perguntas corriqueiras dos clientes.
“Se você quer dinheiro e já tem, vai mudar de profissão para que? Se quer dinheiro fique com ele!” Respondia D. Rodriga, com ar de irritação; e não queria mais aceitar doação de gente insatisfeita com os seus dizeres.
“Se me separar encontrarei outra pessoa?” Essa pergunta não soava bem aos ouvidos da D. Rodriga.
“Se você quer ter alguém, fique com quem você está! Agora se quiser se arriscar, vai ter chance de ficar só, ou quem sabe se acompanhar de novo.” Respondia a vidente, sem jogo de cintura.
“Meu filho quer ser artista, ele vai ter sucesso? Ele vai ser famoso?” Essa pergunta amargurava de vez a dona Rodriga. “Como se não bastasse a pessoa querer sucesso pra si, quer empurrar mais gente nessa ribanceira. Era o que me faltava.” Pensava a vidente.
Para finalizar as consultas, que eram coletivas, pois as dúvidas coincidiam em grandes numerais, ela se acalmava, via o que via e respondia:
“Quem se separar vai viver a solidão em carne viva; e pode ser que se recupere, se tiver coragem. Se não tiver, vai contabilizar o passado e fazer uma lista para o futuro; o que vem daí não se pode ver.”
“Quem quiser ser artista que desista do dinheiro, porque o artista, que recebe o convite da deusa da criatividade, vai ter que abrir mão dos compromissos supérfluos.”
“E quem quiser viver bem, vai ter que passar do passado.”
A gente toda se irritou com os dizeres da dona Rodriga; e o grupo resolveu chamar a polícia.
Quando o policial chegou, deu baixa na situação, levando dona Rodriga para o xilindró.
Diante de gente importante na lista de delatores, o delegado teve que acelerar o caso; e o juiz também não pode se fazer de rogado, apesar da simpatia que reservava àquela senhora.
Na audiência, o juiz tentou aliviar a pena da dona Rodriga, dizendo que ela não respondia por si, que já tinha mais anos de idade do que aparentava, mas dona Rodriga não tinha qualidade de bem mentir.
Antes que o juiz proferisse qualquer sentença, o advogado de acusação propôs um acordo: se dona Rodriga desvendasse os números da loteria e os fornecesse aos clientes lastimados, o juiz poderia arquivar o caso.
Dona Rodriga pediu um copo com água, bebeu e disse os números que lhe vieram a cabeça; complementou, informando que aqueles números sairiam dali a seis meses. A proposta foi aceita, porém, nesse período, a acusada continuaria presa, até que o resultado final saísse.
A cidade ficou em polvorosa; houve reportagem até no exterior; era a gente toda gastando por conta.
Chegado o dia, e como esperado os números eram os tais. A cidade parecia um vulcão; se a gastança era grande, tornou-se ainda maior. Todo mundo pagou o que devia, comprou o que precisava e mais outras coisas, que nunca sentiriam falta; a cidade se modernizou com a dinheirama advinda da loteria; todo mundo estava rico, da noite para o dia.
Dona Rodriga saiu da delegacia e foi morar num povoado menor, onde escondeu a identidade.
Passados uns quatro anos, aos poucos; e depois, aos muitos, a gente toda localizou dona Rodriga e voltou a pedir seus conselhos. A pergunta geral era:
“Já que temos tudo, quando seremos felizes?”
Dona Rodriga disse que, para responder a tal pergunta, precisava catar umas ervas.
Entrou no mato e nunca mais voltou; e, desde esse dia, ficou conhecida como a charlatã.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Vazio
Já tive inveja dos alpinistas e mergulhadores de caverna. O compromisso interno de se submeter às alturas ou às profundidades, sustentado somente por paixão, me deixava trôpega só de imaginar e não ter coragem.
“É poder tocar o vazio.” Diziam os alpinistas e mergulhadores.
“Podem traduzir?”
“Não dá pra explicar em palavras. Você tem que experimentar.”
“Isso não é pra mim.”
“Tem alguma coisa que você faria a qualquer custo.”
“Tem não. Tudo tem custo... e costuma ser caro.”
“Certamente existe alguma coisa que a leva às alturas ou às profundezas. Pode ser seu filho, seu trabalho, música... alguma coisa. Lembra?! É esse o sabor.”
Comecei a dançar tango, porque queria descobrir alguma coisa incrível como escalar o Everest ou mergulhar numa cavena à noite, sem medo e por pura vontade.
De fato, o tango abriu uma porta para uma outra dimensão; não é tocar o vazio; é poder tocar todo mundo por inteiro com a pureza de querer nada menos do que flutuar no salão; e como flutuamos. Estamos totalmente lá e nada mais existe. É uma espécie de meditação ambulante; é uma pausa nos pensamentos; o corpo cuida de tudo enquanto a mente dá uma trégua.
Apesar do contentamento, eu queria ter a experiência de tocar o vazio, sem ter que subir o Everest nem mergulhar numa cavena em horário noturno, ou rodar o salão a noite toda, de mão em mão. Haveria de haver outras formas. E há, e houve.
Foi nessa onda de sentir contentamento em existir que comecei a escrever. E quando escrevo encontro o que eu estive buscando a vida inteira nas minhas relações amorosas, nos meus cursos e nos meus empregos e nas minhas viagens. Quando algo me passa e meu humor me envergonha por qualquer motivo, eu me relembro: você escreve; você toca o vazio.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Livros internos
Há histórias que não são contadas pra ninguém; são aquelas que ficam registradas nos livros internos, guardados a sete chaves no sótão mental, onde se costuma estocar o medo da desaprovação, de não ser amado e, pior, de ser acusado de “escória da humanidade”.
Só conhecem as histórias desses livros os parceiros no crime, e as respectivas vítimas. Não se tratam de mentirinhas brancas; são fatos ocorridos, senão, pelo menos, planejados e executados mentalmente; a respeito dos quais se diz: esses casos só acontecem em filme iraniano.
Certa vez, dizem que aconteceu em algum lugar no interior, enquanto estavam de férias, os primos brincavam de se esconder. Um deles se escondeu no consultório de dentista da tia. Como ninguém o encontrava, ele começou a mexer nos vidrinhos que via pela frente; e ficou encantado com um vidro de mercúrio, que achou; depois o mostrou a outro primo. O que achou disse: “vamos tomar?” E marcaram hora e lugar para tomarem; houve algum desencontro, o segundo primo chegou atrasado, e o primeiro tomou tudo sozinho. Anos mais tarde, esse primo morreu de câncer; e o outro primo ficou ensimesmado, pensando se o fato tinha a ver com aquela brincadeira da infância, e nunca tocou no assunto. Isso só pode ser história de livros internos.
Outra vez, em outro lugar de uma cidade grande, amigos reunidos encontraram-se com os amigos dos amigos. Uns se paqueraram, outros invejaram a paquera dos primeiros. Novos encontros foram marcados. E tudo se repetiu. Um esperou que outro fosse embora e paquerou a escolhida do amigo. Nada ocorreu além de um leve estalinho entre eles. No dia seguinte, combinaram de nunca tocar no assunto, pois houve um arrependimento mútuo. No entanto, uma testemunha denunciou; e o amigo, que se sentiu traído escolheu não falar mais com o outro amigo. Um ano depois, todos resolveram fazer as pazes. O amigo, que perdoou, e a paquera casaram-se e viveram juntos até a morte, que ocorreu num acidente de avião. O amigo remanescente se perguntou: “estava tudo escrito?” Mas dizem que isso também é coisa de livros internos; ninguém ousa a comentar sobre o assunto.
Por incrível que pareça, há na Terra 6,775,235,700 bilhões de livros internos e um número infinito de histórias. Muitos dos detentores dos livros internos preferem deixá-los escondidos onde estão, resguardando-nos do julgamento alheio e mantendo as condições sociais de temperatura e pressão do planeta; outros se disfarçam, mudam os gêneros, os nomes e um tantinho “assim” do que ocorreu; e os compartilham com o mundo sideral em formato de histórias inéditas.
domingo, 5 de junho de 2011
Juízo
Ainda jovem, Edir começou a se dedicar aos estudos; era aquele raro adolescente que já sabia o que queria, não se metia em confusão e se comportava como um adulto. Tinha o caráter forte; era rigoroso consigo mesmo e tinha certa tendência a autoflagelação se cometesse erros ditos banais.
Tornou-se um homem reto, e de sentimentos reservados. Formou-se em direito e, antes que todos imaginassem, ingressou na magistratura; e com rigor julgava os casos que lhe submetiam. Justiça rápida e eficaz; não admitia sentimentalismo. Dizia com orgulho que todos os acusados foram devidamente punidos.
Casou-se e teve dois filhos. Era um homem feliz e realizado.
Não compreendia a dificuldade que as pessoas tinham em seguir regras; não entendia por que algumas pessoas queriam fazer diferente das convenções sociais.
Por conta do seu rigor, teve alguns desentendimentos familiares; deixou de falar com um irmão que abandonou os estudos e vivia de “bicos”; e não se entendia muito bem com a irmã que havia se divorciado de um homem bom, segundo ele.
As reuniões de família se resumiam à mulher e aos filhos. Era um homem de poucos amigos, porém profissionalmente respeitado.
Seus filhos cresceram e também ingressaram na carreira jurídica. Edir era o próprio retrato do orgulho.
“Que mais um homem podia querer?”
Tinha acabado de completar 50 anos, porém trabalhava com o vigor dos 30. Todos ficavam impressionados com a sua produtividade.
No entanto, foi surpeendido numa audiência por um lapso de memória; irritou-se e não julgou o caso. O episódio repetiu-se mais três vezes até que ele decidiu ir ao médico.
Os médicos detectaram um princípio de Alzheimer.
“Como isso foi acontecer justo comigo, um homem intelectualmente ativo?”
A ciência não soube responder.
Os lapsos de memória, relativa aos detalhes, tornaram-se cada vez mais frequentes. Edir teve que abandonar a profissão um mês depois de ter recebido o convite para o cargo de desembargador.
Como era um homem correto, admitiu que não poderia aceitar o convite, pois os seus lapsos de memória prejudicariam o andamento da justiça.
Afastou-se da profissão para dedicar-se à sua saúde. Como o seu caso era “de princípio de demência” tinha consciência de tudo o que estava acontecendo.
O que o deixava completamente devastado era o fato de as pessoas ficarem lhe lembrando o quanto ele “tinha sido o melhor nisso ou naquilo, onde ele teria chegado se isso não tivesse acontecido; as inúteis correções sobre o que ele não se lembrava, e o quanto aquilo tudo era injusto”.
“Essa saudade que vocês sentem do que eu fui me dói mais do que os lapsos de memória. Isso parece uma tortura, como se vocês não aceitassem o que eu sou. Se existe algum bem nessa doença é o alívio de não ter passado.”
E talvez por não se lembrar do que lhe motivou a brigar com os irmãos, voltou a conviver com eles; e resgatou os amigos que tinha.
Superado o período de incompreensão pelo que lhe aconteceu, Edir sente-se agraciado, porque pode reconhecer o amor dos seus familiares e amigos; e hoje ele vive com a memória de cada dia, e nada mais.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
A escolha da profissão - capítulo I
No ano do vestibular, Maria Alice começou um duelo com o seu pensamento a fim de decidir a sua profissão. Pensativa e angustiada, no seu quarto, ela caminhava e falava consigo mesma. Após alguns segundos, parou diante do espelho e se perguntou:
- Aos dezessete anos de idade, alguém sabe realmente o que quer fazer da vida? O sistema educacional sempre ditou as regras, exigindo determinados comportamentos e podando as minhas emoções. Por que a escola não produziu um manual perfeito que advinhasse a minha profissão? Por que não me prepararam para esse momento? Justo agora quando inúmeras dúvidas me recheiam, eu tenho que decidir sozinha o que quero da vida. O que eu queria ser quando crescesse? Já nem me lembro dos meus sonhos... de acordo com a minha mãe, eu tenho futuro, pois estudei nas melhores escolas, falo idiomas, fiz natação e ballet; sou um potencial competitivo para o mercado de trabalho. Mas o que isso tem a ver com a minha escolha?
Juntando o seu quebra-cabeça de perguntas e querendo uma resposta, Maria Alice continuou:
- Eu acho que já sei quem sabe o que quer: um abençoado, que desde cedo, tenha um talento especial, ou uma vocação inquestionável. Esse ser, se tiver coragem, poderá viver disso. Às vezes penso que se muitos têm talento, poucos têm coragem, porque há uma quantidade razoável de gente na minha turma que elege a carreira, considerando as matérias e assuntos que lhe são familiares. Por exemplo: acha que quer ser engenheiro, porque gosta de física e matemática; ou advogado porque gosta de ler e é articulado; ou economista, porque gosta da seção de economia do jornal; ou escolhe uma carreira para a continuação dos negócios da família, seja por vontade própria, ou ausência dela, ou ainda por pressão familiar. Há também pessoas, que por necessidade ou por garra, elegem a carreira em prol da pecúnia, garantindo a sobrevivência. E, finalmente, há aqueles, eu inclusive, que fazem as escolhas por eliminação: vão eliminando as possibilidades relacionadas a algo que não gostam e acabam escolhendo, na maioria das vezes, cursos mais generalistas, para se encaixarem em mais oportunidades. Muitas vezes, essas escolhas pouco fundamentadas, que tomamos na adolescência, dão certo. Quantos profissionais bem sucedidos não existem por aí, sem terem um talento nato e sem necessariamente terem se arrependido do caminho que trilharam? Acho que o meu talento é ser prática.
Assim começou a história de Maria Alice. Usando o sistema eliminatório, ela dissolveu a dúvida, colheu o curso que sobrou e expôs a sua decisão:
- Mãe, já decidi! Vou fazer administração de empresas.
- Que alívio ouvir isso, minha filha. Você acredita que a filha da Eleonora decidiu estudar cinema? O que a filha dela acha que vai fazer? Sem comentários, não é filha?! Temos que ser práticas na vida e buscar logo as boas oportunidades de trabalho. Tenho certeza que você vai conseguir chegar lá.
Maria Alice ouviu aquelas palavras e entendeu que “lá” era o seu destino.