Viver é perigoso, já dizia Riobaldo em Grande Sertão: Veredas. Entretanto, amar é ainda mais perigoso. Talvez seja o ato mais perigoso entre nós. Não há nada que nos deixe mais vulneráveis do que amar. Essa afirmação não é minha. Freud foi preciso ao afirmar: “Wir sind nie so schutzlos gegen das Leiden, wie wenn wir lieben.” (“Nunca estamos tão desprotegidos diante do sofrimento quanto quando amamos.”)
Quem tem coragem de amar? De se sujeitar a uma traição ou a uma rejeição da noite para o dia? E, ainda assim, apostar no amor como forma de transformação e evolução a dois? Quem não gostaria que fosse possível amar e não sofrer? Ou que fosse possível, para a maioria, ser feliz na solidão? Que fosse possível amar o trabalho mais que qualquer pessoa? Quem não gostaria que fosse possível não sofrer?
Atualmente, estamos cercados por promessas de uma vida sem dor:
"Venha por aqui e você será feliz sem nenhum sofrimento. É simples: basta não se relacionar. Tome um pouco disso, viva dormente e se entregue ao prazer.”
Esses seriam os requisitos para uma vida sem sofrimento.
Não tenho dúvida de que há pessoas felizes estando sozinhas. Mas essa não é a regra. Você quer, de verdade, ir por ali?
“Silvia, você não vê que há pessoas felizes sem relacionamento? Você quer que todo mundo ame, que todos apostem em um relacionamento? Você está limitando sua percepção. É preciso ver que cada um é cada um; caso contrário, não há empatia.”
Nós somos diferentes. Porém, existem pontos comuns que atravessam culturas, tempos e tradições. Nenhuma sociedade progrediu sem se relacionar, sem amar.
A solidão pode existir. Porém, é a comunhão que oferece o fundamento necessário quando as intempéries da vida batem à porta.
Amar é um ato de coragem. Evitar o relacionamento costuma ser uma defesa para aliviar o medo de precisar do outro.
Não estou pregando que todos devam casar ou ter filhos. Trago o tema relacionamento como base para a evolução pessoal. É a união de duas substâncias que reagem ao entrarem em contato. Isso ocorre na química, na física, na biologia — e no ser humano.
Desde Aristóteles sabemos que o ser humano é, por natureza, um animal gregário. Freud e Jung apenas confirmaram isso na psicologia: a vida psíquica raramente se sustenta no isolamento, salvo como exceção. Somos os únicos animais que compartilham comida.
O ponto principal é valorizar o relacionamento, porque parece haver uma tendência a transformá-lo em produto descartável.
Para mim, sexo casual é uma expressão contraditória, porque sexo não tem nada de casual. Em termos biológicos, as mulheres, em média, apresentam uma resposta neuroquímica de vínculo mais intensa durante o sexo, associada a uma liberação de oxitocina mais elevada e prolongada. Sexo casual não parece fazer parte da estrutura emocional da maioria das mulheres, e apresentá-lo como solução é enganoso.
Hoje, existe a propaganda do “eu faço o que eu quiser”. Quem não quer!? Isso certamente traz prazer no curto prazo, mas tem um preço no longo prazo.
A questão é: você quer pagar o preço de uma vida sem arriscar amar?
Amar é perigoso. E há que se pagar um preço por isso também. De uma maneira ou de outra, o sofrimento é inevitável.
Por isso:
"Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?"
