segunda-feira, 9 de maio de 2011

Innocents abroad

Esse é o título do livro do autor Mark Twain, que estou a procurar sem encontrar. De sebo em sebo, eu rondo a cidade de Melbourne. E nada; nem simpatia dos vendedores.

“How many times do I have to say that there isn’t such a book here? By the way, who is Mark Twain? What the hell has he written that you are SO interested?”

(Silêncio).

“Are you alright, mate? I am sorry. I shouldn’t have said that. But you come here every day to ask the same question.”

(Silêncio).

“Would you like to have some tea?”

“No, thanks.”

“Come on. It is not poisoned. Which one do you like?”

“Darjeeling.”

(Silêncio).

“Would you like some more?

“Yes, please.”

"In life sometimes we have to accept that we won’t get what we want… More tea?"

“Yes.”

“You remind myself while I was in India. I met some local people there and I wanted to know how they found their partners. When I asked, they answered, without hesitating:

“Arranged.”

“I knew the answer but I asked.”

“So, do you have the book I am looking for?”

“You must be kidding. Please, go away.”

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cri-cri?

Tem gente que parece ter vindo pra reorganizar o mundo. Não pode ver nada fora do lugar; sente comichão; alfineta, critica e, às vezes, dilacera. 

Dizem que aconteceu mais ou menos assim...

Estavam todos, em plena National Gallery of Victoria/Australia, observando a exibição Masterpieces; visita guiada pelo diretor do National Gallery; explicação artística, detalhes das obras de Cezanne, Van Gogh, Renoir, Degas, Stuck, Liebermann, Beekman, Moreau, dentre outros que a memória lastima por não lembrar.

Enfim, la crème de la crème, até que surge grandiosa a pintura do J.H.W. Tischbein, retratando Goethe no campo. http://en.wikipedia.org/wiki/File:Johann_Heinrich_Wilhelm_Tischbein_007.jpg

Todos param, admiram e seguem; exceto uma pessoa, que olha cada detalhe, disseca, tenta seguir e não consegue. Tem alguma coisa que... a pessoa não identifica. Os outros aguardam, sorriem, e depois fazem um muxoxo, sem esconder a impaciência.
Só pode ser capricho. Que venha o diretor.

“Você notou?”

As pessoas parecem brincar de telefone sem fio.

“Notou o que? Você notou? Do que o ele está falando?”

“Goethe tem dois pés esquerdos, nessa pintura.” Esclareceu o diretor.

Quando você encontrar com gente “assim” por esse país, faça um bem pra a humanidade, ponha a sua mão no ombro da pessoa e lhe pergunte: você já pensou em escrever, tocar piano, pintar, fotografar, ou dançar? Ela provavelmente vai perguntar qual é a lógica da sua pergunta, dentre outras. Porém, um dia vai agradecer por você ter plantado essa semente.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inspira, transpira e teletransporta

A palavra inspiração está em voga. Há vários vídeos sobre o tema no www.ted.com nos quais cada palestrante apresenta a sua respectiva teoria da inspiração. A grande maioria refere-se a "ela" como uma personagem temperamental. Os dois casos que mais me chamaram atenção foram o do compositor americano Tom Waits e o da escritora Elizabeth Gilbert.

O Tom Waits garantiu que a inspiração surge de repente; ele contou que certa vez estava dirigindo o próprio carro pela estrada quando “ela” parecia descer do céu, em formato de letra de música; ele não se fez de rogado, baixou o vidro, inclinou o pescoço em direção ao ombro esquerdo, e expondo a cabeça para fora do carro; olhou pra cima e disse, em tom de indignação:

“Can’t you see that I am driving? If you can’t wait until I stop, go away and look for somebody else.”

A escritora Elizabeth Gilbert também dialoga com a tal "entidade"; e disse que quando escreve, olha para o canto da sala, e lança algo do gênero:

“I am doing my job, please, do yours.”

Pelo que pude compreender, “ela” faz parte de uma conspiração. Se você estiver no lugar certo, na hora certa, é “batata”. No entanto, fico temerosa de eleger um lugar certo e uma hora certa, porque se “ela” for mesmo temperamental, “batata nem por um bugalho” (com o perdão do trocadilho). De modo que para demonstrar a minha total submissão à “excelência”, também criei um rito. Todos os dias antes de escrever, sento em frente à State Library of Victoria e me perco naquela maré de ar e transeuntes.

Foi num dia como esses, enquanto estava seguindo o meu rito em busca de inspiração, que uma aeronave em formato humano-feminino, com longos cabelos negros e jeito de sereia, me interpelou.

“Can I interview you? I am studying English and my homework is to interview people who live here.”

Dei uma pausa no rito, pedi licença a senhora dona inspiração, por se acaso "ela" estivesse disposta a me usar, porém me justifiquei.

“Passo o dia com personagens imaginários; quando alguém em carne viva aparece, é uma festa química.” Pelo que me lembro, “ela” deu de ombros; e pude conversar com a tal sereia terrestre.

“My name is Lin and I am from China. I have to ask you some questions. Do you like Australia?

“Yes.”

"Why?”

“As a friend said once, Australia gets under your skin before you know it. There isn’t a reason.”

Outras questões se seguiram. Nome, de onde você é, idade e quanto ganha.

“In China it is very common to ask age and wage.”

“Really? In Brazil these questions are quite shocking; and I bet it is against our constitution.” Exagerei.

“And what do you do?”

“It is hard to explain. I want to become a writer. This means that I walk, listen, write and I am interviewed; I should add.”

“Having time you should add. You are the first person who is available to answer my questions.”

A conversa foi se estendendo; e resolvemos ir a um café. Na primeira dose de cafeína, confessei o meu fascínio pela terra do dragão vermelho; e em três segundos gastei todo o meu chinês, dizendo: oi/ni hao, obrigada/xie xie ni e não/boo. Porém consegui impressionar Lin, que se dispôs a responder qualquer pergunta.

“Por que é tão importante que o filho seja homem na China?

“Porque a mulher quando se casa passa a pertencer à família do marido. Os pais moram com o filho até a morte. Quando a filha casa, quem vai cuidar dos pais, inclusive financeiramente? Pela tradição chinesa, os filhos rezam para os ancestrais da família. Quem vai rezar pelos pais da filha?”

A essa altura já estávamos na capital. Beijing. A minha anfitriã garantiu que Beijing é tão segura quanto Melbourne; e é comum que as amigas andem de braços dados. Contou também que os chineses, homens principalmente, fumam muito. É quase uma regra social “para ser macho-man”.

De Beijing, ela me levou à muralha. Descreveu cada pedacinho da sua grandiosidade. No entanto, adicionou que a muralha torna-se diminuta se comparada ao exército de terra-cota. O imperador Chinês, que se auto-nomeou o primeiro imperador, mandou construir toda uma cidade para os seus ancestrais, datada de 210 AC. Um exército de aproximadamente 8000 soldados de terra-cota foi confeccionado para fazer a sua defesa; cada soldado tem roupas, armas e expressões diferentes; jóias e objetos de valor também constavam na cidade construída. Um muro foi levantado, enquanto os artesãos manuseavam aquela arte, fechando-os para sempre e evitando que os seus segredos fossem revelados. Esse complexo foi descoberto em 1974 por fazendeiros que escavavam suas terras e se surpreenderam com cavalos, carruagens e soldados, de broze e terra-cota. http://www.artgallery.nsw.gov.au/exhibitions/first-emperor/

“E hoje em dia, as pessoas ainda fazem algo para os ancestrais?”

“Quando alguém morre, tiramos fotos de todos os bens, inclusive aparelhos domésticos, TV, rádio, dvd, dentre outros, e queimamos, para que a fumaça os leve para o ente querido.”

“Estou pasma, Lin. Quero saber também sobre política. What about corruption?”

“What does corruption mean? How do you spell it? I have a digital dictionary from English to Chinese.”

“C – o – r – r - u - p – t – i – o- n.”

“Oh. I see. I’ve never talked about it to anyone in China.”

“Ok. Let’s go back to Melbourne.” Eu lhe propus. 

Aterrissando no nosso café em Melbourne, Lin contou que na China ninguém fala sobre isso; nem em casa, nem entre amigos. Nada. Nunca. Contou também que os chineses vêm estudar na Austrália, porque na China se alguém quiser ir para universidade, os pais têm que começar a bajular, enviar presentes para os professores e oficiais da universidade, enquanto os filhos ainda estão na escola.

“Como se dão as eleições locais?”

“O candidato oferece, por exemplo 50 dólares, para que o eleitor vote nele”.

“E se o concorrente oferecer mais?”

“O candidato, que ofereceu menos, perde.”

“E como são votadas as leis?”

“Quem quer que a lei seja votada diz: se alguém for contra essa lei, favor, colocar seu nome nesse papel.”

“E o sobre o que você conversa com as suas amigas?”

“Sobre uma heroína que começa do zero e consegue vencer na vida, consquistar o mundo e se casar.”

Depois dessa experiência de teletransporte, dei de cara, por sorte, com a tal “entidade” que, de braços cruzados e batendo o pezinho no chão, ordenou:

“Agora senta e escreve.”

Futurama

Todas as vezes que me preocupei com o futuro, acumulei um pouco de dinheiro e muita ansiedade. Eu me recordo do momento em que desisti, e comecei a optar pelo presente.

“Como você se vê daqui a cinco anos?”

Tenho que responder o que o interlocutor espera. Algo que dê lucro; ambicioso; megalomaníaco talvez; sem soar exagerado, factível. Vamos lá, pensa rápido. Não é possível. Essa pergunta só pode ser feita pra gente mentir. Será que há cinco anos ele se imaginava aqui me entrevistando? Se eu mentir vou entrelaçar as pernas e os braços, nem precisa detector. Refleti. Mas tenho que responder algo rápido. Pensei e lancei a sorte.

“O senhor me dá um minutinho?”

Baixei a cabeça, pus os cotovelos na mesa e com as mãos segurei a testa. É tão óbvio que não sabia a resposta que não conseguia ver; fiquei buscando desesperada uma resposta chavão.  Fiz até um filminho mental, cujo personagem era uma pessoa solicitada, sem tempo. Não era eu. Esse minuto deve ter durado 10 segundos pra mim e uma hora para o interlocutor, que com o cotovelo na mesa segurava o queixo com uma mão, e, com o canto do olho apreciava o relógio na outra.

“Não sei. Desculpe desapontá-lo.” Eu depus. 

“Nunca imaginei que fosse ouvir isso de um canditato.” Ele disse, sem cerimônia. 

Ambos sorrimos com os olhos e baixamos a guarda; eu, porque já não esperava conseguir uma vaga; e o interlocutor porque foi surpreendido.

“Obrigado por ter vindo aqui. Aguarde uma resposta.”

Em algumas semanas, recebi uma carta, dizendo que eu havia conseguido a bolsa chevening do British Council. Devo confessar que fui a última colocada, porém estava tão satisfeita quanto o primeiro lugar.

Um ano depois, quando reencontrei o interlocutor, relembramos aquela entrevista, e lhe contei que não tinha qualquer expectativa de ser selecionada por conta daquela pergunta; e ele retrucou imediatamente:

“Ninguém perde por ser honesto.”

terça-feira, 3 de maio de 2011

Sobre Enterro


Ele foi considerado inimigo e traidor; como punição, foi morto e o corpo deixado fora da cidade para ser comido por animais, ao invés de ser enterrado como manda a tradição.

Alguns compassivos suscitaram leis superiores e disseram ser imoral. 

Os argumentos não foram ouvidos; o enterro foi impedido pelas circunstâncias do poder.

Mito de Antígona sobre o direito que o irmão Polinices tinha de ser enterrado, escrito por volta do ano 400 AC. 

No entanto, parece que foi ontem.

Prêmio de ensaísmo serrote

"Até o dia 30 de agosto, o Instituto Moreira Salles promove um concurso de ensaio. O texto deve ser inédito e respeitar as regras abaixo. Segundo Paulo Roberto Pires, editor da serrote, “viagem ou literatura, vida pessoal ou política, a matéria-prima do ensaio não é exclusivamente seu tema, mas a possibilidade de reflexão sobre uma experiência concreta ou meramente intelectual”. A intenção deste concurso é incentivar a produção ensaística em língua portuguesa. Os prêmios vão de R$ 2 mil a R$ 5 mil.

1. 1. Incentivar a produção ensaística em língua portuguesa é o principal objetivo do prêmio de ensaísmo serrote. Dedicada exclusivamente a este gênero de não-ficção, a revista completa três anos em busca de novos interlocutores para a forma que, acreditamos desde o primeiro número, é indispensável para a discussão livre de idéias.

2. 2. Podem concorrer autores de expressão em língua portuguesa inéditos em livro ou que tenham, no máximo, uma obra publicada. Os textos, de até 30 mil caracteres, devem ser inteiramente inéditos até o anúncio do resultado e relacionarem-se com as áreas de interesse do Instituto Moreira Salles, a saber: artes visuais, cinema, fotografia, literatura e música.

3. 3. É vedada a participação de autores que tenham qualquer ligação com as atividades de pesquisa, publicações ou consultoria do Instituto Moreira Salles.
4. 4. Os ensaios, assinados por pseudônimo, devem ser remetidos para o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro (rua Marques de São Vicente 476, Gávea, CEP 22451-040) em uma via impressa e uma versão eletrônica em CD. E anexado, um envelope lacrado e identificado apenas pelo pseudônimo deve conter os dados do candidato – nome, endereço, telefone e endereço eletrônico.

5. 5. Os textos serão recebidos impreterivelmente até o dia 30 de julho de 2011, sendo observada a data da postagem.

6. 6. Uma comissão julgadora formada por Flavio Pinheiro, Paulo Roberto Pires, Samuel Titan Jr. , Flávio Moura, Francisco Bosco e Matinas Suzuki Jr. será responsável pela avaliação dos originais.

7. 7. Os três primeiros colocados receberão prêmios em dinheiro de, respectivamente, R$ 5 mil, R$ 3 mil e R$ 2 mil. O primeiro lugar será publicado no número 9 da revista, que chega às livrarias em novembro. Os dois outros serão publicados em edições subsequentes ou no site do IMS, a critério dos editores da serrote."

De olhos bem fechados

Laios, com o filho nos braços, foi ao Oráculo perguntar sobre o futuro do menino; e o Oráculo respondeu.

“Ele vai matar o pai e casar com a mãe.”

Aquelas palavras ecoaram na cabeça de Laios, fazendo com que ele se apegasse cegamente à forma daquele destino. Laios não parava de materializar em pensamento toda a cena com riqueza de detalhes; não cedia espaço para imaginar que o Oráculo pudesse estar falando da independência do filho, que supera o pai, e casa com a mãe de seus filhos. Laios, tomado pela sua certeza, tentou desesperadamente evitar a perda das suas posses, da sua autoridade; e abandonou Édipo, ainda bebê, num lugar ermo, e partiu.

Uma família, que ali passava, encontrou o Édipo e o levou para a cidade vizinha. Édipo cresceu nos braços daquela família; e, na idade adulta, conforme os costumes locais, foi ao Oráculo saber sobre o seu futuro; e o Oráculo confirmou.

“Você matará o pai e casará com a mãe.”

Édipo, possuído pelas imagens daquela profecia, fugiu para outra cidade, abandonando a família que o acolheu. No caminho, ele deparou-se com Laios, defendendo a fronteira das terras. Sem que um soubesse quem o outro era, ambos sentiram-se ameaçados; e o encontro foi acompanhado por uma briga. Édipo matou Laios e foi levado como herói pra cidade onde Jocasta, sua mãe biológica, morava; e lá se casou com ela.

Algumas situações na vida repetem-se surpreendentemente. Dessas, não podemos fugir. No entanto, podemos escolher vivê-las conscientes, ou não. 


Nota: a fonte desse post é o mito de Édipo. O post não serve como consulta, pois foi resumido e contado sob um ponto de vista particular. Para mais detalhes e dados confiáveis, favor consultar http://en.wikipedia.org/wiki/Oedipus .