domingo, 3 de setembro de 2017

Gravidez aos 40: Puerpério - o que me (a)guarda

É evidente que o mais importante é o fato de a mãe e o bebê estarem bem, independentemente do tipo de parto, ou da cirurgia, ou se foi um processo de adoção, porque a avalanche de mudanças que a ligação entre mãe e filho traz a rebote é capaz de fazer trincar o templo Ankor Wat, no Camboja. 
Sei que inúmeras mulheres passam por situações difíceis logo após o nascimento do bebê, seja por questões pessoais de saúde, seja porque o bebê teve dificuldades de quaisquer ordens. No meu caso, foi tudo melhor do que o imaginado! 
Então aguardo, de atalaia, o efeito do pós-parto. 
As esperadas sensações puerperais imensamente discutidas nos encontros de gestantes não chegam no dia do nascimento do bebê. Elas chegam sorrateira,  alguns dias  depois.
De acordo com a minha experiência, elas caíram do céu, enquanto eu estava relaxadamente fazendo pipi, antes de ir para a cama. Eu havia acabado de amamentar. Eu sentia os seios quentes e duros, feito pedras. Entretanto, só pensava em fazer pipi. Então, fiz. 
Não sei descrever ao certo. Sei que me levantei do sanitário e senti um arrepio, daqueles de arrepiar o couro cabeludo. Nesse momento, fiquei confusa. As luzes da casa estavam apagadas, pois a nossa filha já dormia; o silêncio e a escuridão deviam imperar, sob qualquer custo. O arrepio transformou-se em tremedeira. Eu estava de calcinha e sutiã. Senti frio. Um frio fora do comum. Saí do banheiro, tateando as paredes e andando com dificuldade, a tremedeira havia atingido o meu queixo. Meu marido estava no quarto. Era para lá que eu me dirigia. 
- Preciso dar mais três passos - falei comigo mesma. Pensei no meu anjo da guarda. Procurei palavras carinhosas para lhe dizer, mas não as encontrei. A sensação foi um tanto quanto sobrenatural. - Esconjura - foi a palavra que balbuciei.
Enquanto eu dava os três passos para chegar ao quarto, um faixo vindo do céu, ou melhor, dois faixos encheram ainda mais os meus seios, que já estavam duros. Cheguei ao quarto, pensei em chamar meu marido, mas decidir primeiro abrir a gaveta da cômoda e vestir todas as roupas que vi pela frente. A tremedeira e o frio não passavam. Meu marido estava sentado na cama, lendo, quando o chamei abruptamente.
- O que houve? - perguntou assustado, vindo até mim.
- Acho que vou morrer de frio! - falei tremendo o queixo e me abandonando nos braços dele. Ele me deitou na cama e me embalsamou com as cobertas que tínhamos. 
- Cuide da nossa filha, por favor - disse-lhe tremendo e em tom sério, porque comecei a imaginar cenários dramáticos, sem precedentes.
- Vou enviar uma mensagem para a doula. Ela comentou algo sobre febre de leite, no dia do parto - disse ele e me trouxe um termômetro. 
Meu marido conversou com a doula por WhatsApp e ela disse que monitorássemos a temperatura e que nos visitaria pela manhã cedo. 
Pedi ao meu marido que me abraçasse forte e me fizesse um cafuné. Eu queria que ele me segurasse na Terra. Cheguei a pensar que estava flutuando no espaço sideral, num bloco remanescente de gelo da Antártida. 
Quando a nossa filha chorou, meu marido a trouxe até mim, e eu agradeci aos céus, por poder esvaziar um pouco o peito. Entretanto, a produção de leite não parava e os seios esquentavam e permaneciam duros. 
Era madrugada, quando me lembrei da carta que escrevi às glândulas mamárias, pedindo uma produção de leite sem limites. Em algum momento inexato, tomei coragem, levantei da cama e escrevi uma nova carta, explicando a minha situação e pedindo misericórdia.
Pela manhã, o frio havia passado, mas os seios continuavam duros feito pedras. Eu não conseguia imaginar como iríamos resolver aquela questão, porque eu não queria tomar remédio, enquanto estivesse amamentando. 
A doula chegou cedo acompanhada da sua bolsa Mary Poppins, e, de lá tirou um quilo de arroz cru, dois sacos zip e uma máquina de tirar leite.
- Por favor, ponha o arroz no freezer - pediu a doula ao meu marido, enquanto examinava os meus seios. - Acho que vamos ter que fazer uma massagem, porque do jeito que está, o leite não vai sair na máquina - ela complementou.
Não saiu mesmo, apesar das nossas tentativas. O meu seio estava empedrado. A doula fez a massagem e mostrou ao meu marido como fazer. Ela tentou me explicar como fazer sozinha, porém senti tanta dor que admiti não ter condições de exercitar essa tarefa sem auxílio. Finalmente, a massagem dela diluiu as pedras de leite e pudemos ordenhar à mão, para somente depois utilizarmos a máquina. Quando a doula percebeu o meu alívio, ela pediu que enchêssemos os dois saquinhos zip com arroz. Assim o fizemos. Então, ela os posicionou no meu peito e a quentura passou. Passei os dias subsequentes ainda ordenhando, porque a produção de leite seguia um ritmo acelerado até que estabilizou. 
Esses percalços físicos foram os primeiros indícios de que a avalanche de emoções estava apenas começando.
O puerpério é uma sensação de estar sozinha, inteiramente sozinha, completamente sozinha, embora se tenha pendurado no peito um serzinho capaz de sugar a sua alma, e, ao mesmo tempo lhe apresentar um amor tão puro, que mais se assemelha à graça divina do que ao mais verdadeiro amor que fomos capaz de sentir até ali. 
Depois de uma semana do nascimento da minha filha, meu primeiro pensamento foi: 
- Como as mães vivem? Sem dormir, sem tempo para tomar um banho relaxante, para comer calmamente? Isso sem falar, na mudança hormonal, nas alterações do aspecto físico, sem assistir a um filme, sem ler, escrever, ou fazer qualquer atividade que nos tire um pouco da dura realidade de estar físico e emocionalmente disponível para o novo ser, sem poder dizer “aguarde um pouco, só preciso dormir a noite inteira, meditar, ler um pouco, fazer uma atividade física, ir de vez em quando ao cinema, conversar com as amigas, fazer algo criativo que voltarei revigorada para cuidar de você. 
Nesse início, ser mãe é ter capacidade de renunciar ao mundo, além de praticamente renunciar ao próprio corpo.
A realidade de ser mãe é dura como uma rocha, especialmente quando tudo que se teve a esse respeito foram doces sonhos e propaganda enganosa. 
Para mulheres da minha geração, esse início pode parecer enlouquecedor, porque o nosso mundo foi alicerçado no trabalho fora de casa, no desempenho e na performance; e o trabalho de casa não tem qualquer reconhecimento nem garantia, no curto prazo, que ele foi bem feito, ou que é sequer um trabalho.
Para a minha geração, o trabalho, no geral, sempre foi mais interessante do que a vida doméstica; o lúdico está fora de casa e não dentro. Temos, pelo menos eu tenho, que aprender a redescobrir a graça na vida ordinária.
Logo no início do período do pós-parto, o eu cheio de teorias, de energia e de projetos, que tinha certeza de tantas coisas, está confuso, porque ele só pensa no outro. E agora? 
Agora me sinto perdida, porque todo aquele eu está diluído em diversos arquivos lançados em algum lugar secreto da alma. Aparentemente, perdi a identidade e a nova pessoa, para construir a sua autoconfiança, precisa mergulhar num mar desconhecido e renascer. 
- Como vou me suceder? Serei uma boa mãe? E a mulher, dentro dessa nova pessoa, ainda tem desejos próprios? Será que ela vai viver no estado, no qual só o outro importa? Será que ela vai sobreviver? Como será a vida de casada? O marido e ela continuarão apaixonados um pelo outro e pela nova vida?
Observando de perto, saiu de cena uma viajante autônoma e aventureira, que tinha tempo para tudo, lia um livro atrás do outro, e entrou uma mãe de primeira viagem, que tem endereço fixo, e, que para manter a mente sã precisa resgatar sua individualidade, como se comprometeu.
Nesse período, a solidão é realmente espessa. Se não houver equilíbrio,  é possível sentir desespero. É tão espessa que os pensamentos emudecem e um espaço em branco toma de conta. 
Inicialmente eu não sabia o que fazer com todo o novo espaço vazio. Cheguei a pensar em culpar meu marido. Mas ele estava tão presente que derrubou qualquer tentativa de ataque contra ele. Quanto mais eu reclamava com ele, mais carinhoso ele se tornava comigo. Isso ajudou-me a despertar a minha própria compassividade, o que me fez voltar a frequentar o grupo de grávidas, no qual várias mães falam abertamente sobre a solidão do pós-parto. 
Mas como ia dizendo sobre o espaço vazio, sempre quis ter uma chance de recomeçar numa folha em branco, ser uma pessoa melhor... E agora diante dessa oportunidade, sinto um coquetel de alegria e desconforto, uma espécie de felicidade exaustiva, e, ao mesmo tempo, uma magnificente gratidão por toda essa experiência e pelo o que estar por vir.
A questão agora é administrar uma rotina intensa de tarefas aparentemente prosaicas, com poucas horas de sono, e entrar em contato com as emoções contraditórias do início da nova jornada.
Como tenho dormido pouco, desde que sou mãe, não sei se estou sonhando enquanto durmo, ou se estou sonhando acordada. Mas imagino o puerpério como uma casa grande cheia de portas a serem abertas e exploradas. 
Cada porta leva para salas, quartos e corredores das mais variadas sensações. Sala de luto, quarto de culpa, sala de alegria, corredor de segredos e quartos de uma fonte inesgotável de energia, que a mãe descobre ao começar a cuidar do bebê. 
Passando por uma dessas portas, entrei num ambiente sombrio; deve ser a sala da rejeição, pois pensei nas pessoas que não gostam de mim; pensei também nas minhas médicas. Foi somente depois de alguns dias do parto que lhe informei sobre a minha decisão repentina de parir em casa.  É possível que a minha médica tenha se chateado com a minha decisão. A sensação de que ela não gosta mais de mim abalou aquela velha ilusão do desejo de ser querida por todos, de não gostar da ideia de que alguém de fato não goste de mim, ou não vá com a minha cara. É possível que a minha médica nem se lembre de mim, e, que essas ilações sejam pura fantasia da minha cabeça. É provável que se eu permanecer nessa sala, vou encontrar mais motivos para ficar triste. Então, lentamente ando até a porta de saída, para não chamar mais atenção dos meus pensamentos.
“Não fique isolada” estava escrito na parede ao lado da porta. Ao ler a mensagem, lembrei-me da minha amiga psicóloga que, durante a minha gravidez, falou sobre o baby blues do pós-parto. O baby blues é uma sentimento de solidão triste no pós-parto, por mais que se receba visitas, nem todos compreendem haver um pouco de tristeza num momento tão exultante da vida. Quando se sentir só e triste, divide o seu sentimento com outra pessoa que já passou por isso - a amiga psicóloga alertou bem antes do parto. 
Caminhando um pouco mais adiante, entrei no cômodo, que se assemelha a uma sala de banho e observei que o desejo sexual não diminuiu no pós-parto. Ele desapareceu. Era como se eu nunca tivesse sido uma adolescente cujos hormônios transpiravam sexualidade; como se sexo nunca tivesse existido.  Só me lembrei da importância desse cômodo, quando aceitei receber visitas amigas, e uma delas narrou empolgada suas aventuras, pedindo conselhos de todas as ordens. 
Senti que o assunto era familiar, mas não me lembrava de detalhes. Era como reencontrar uma amiga importante da adolescência e não se lembrar do nome. É uma sentimento angustiante. Nunca havia passado tanto tempo sem pensar em sexo como nos dias do pós-parto. Cheguei a me perguntar se um dia teria interesse sexual de novo. 
Enquanto a minha amiga narrava os detalhes lascivos da sua aventura, minha mente tentava decifrar que idioma ela usava, do que era feito essa maravilha que, por mais detalhado que ela descrevesse, não chegaria aos pés das novas emoções, que eu estava sentindo em relação à minha cria. 
A questão não é sentir prazer, é ter vontade de sentir aquele prazer sexual, quando tantos outros têm prioridade, neste momento totalmente novo. Além disso, existe uma verdade sobre a qual ninguém tinha me falado. A falta de desejo sexual não ocorre em razão do ciclone físico e emocional pelo qual estamos passando,  ela ocorre em função do éden que estamos experimentando. O prazer que a mãe sente de estar perto do bebê é pleno. Não precisamos de mais nada. Não cabe mais ninguém. Foi difícil admitir isso para mim. Ter isso claro fez com que eu compreendesse como era possível casais com filhos pequenos tornarem-se dois estranhos, ou dois irmãos, dois amigos, ou inimigos; como é compreensível aquele argumento que o amor transforma-se em companheirismo e cumplicidade e que sexo deixa de ser tão importante. 
Embora eu sinta o éden da maternidade e desdenhe, no momento, qualquer outra coisa, pretendo resgatar o play ground dos adultos onde quer que ele esteja. Não casei com amigo, nem com inimigo; ele pode até me parecer um estranho agora, mas ele continua sendo o homem que eu amo. 
No entanto, a libido não se dá ao trabalho de agir se nós não agirmos, e admito que para quem pretendia passar longe do estereótipo de piada, eu me senti personagem de uma delas, o que me incomodou. Então lembrei que posso suportar menos dinheiro, menos tempo, menos sono, menos liberdade, menos privacidade, menos intimidade física, mas não abro mão da comunicação honesta, porque ela sempre pode nos salvar. Por isso, conversei com o marido sobre o assunto, para antecipar que o retorno à vida íntima não seria fácil nem automático após o período de resguardo, mas que eu gostaria de tê-la de volta, mesmo sem fazer ideia de como resgatá-la. Acho que ele leu sobre o tema, pois ao invés de estar atrás de mim com o calendário na mão, dizendo “é hoje”, ele me propôs voltarmos a namorar, como se nunca tivéssemos tido nada antes. Depois da nossa conversa, confesso que a mera inquietação, pela incerteza de como seria daqui para frente, indicou que o erotismo ainda mora na nossa casa. Precisamos, entretanto, querer enxergá-lo. 
Apesar do nosso esforço diário de sermos carinhosos um com o outro, o resultado estava aquém do que ambos esperávamos. Foi então que decidi perguntar para as amigas mães recentes como elas tinham superado esse percalço. Todas, sem exceção, assumiram que tiveram que resgatar outros prazeres antes de sentir o erotismo na pele novamente. Uma delas sugeriu que fizéssemos uma lista de três coisas que nos davam prazer, independentemente da vida sexual e do novo éden com o bebê. Ela complementou, dizendo que provavelmente não estávamos a exercitando e isso dificultava a volta à intimidade física. 
- Como teríamos prazer com o parceiro se não tivéssemos prazer sozinhas? - ela perguntou, para em seguida, afirmar que se fizéssemos algo especial para cativar a nossa individualidade, a libido sairia do seu esconderijo. 
A lista de cada uma indicava as necessidades básicas das nossas personalidades. A autora da ideia escreveu: meu vinho, minha música e minha dança. Uma outra estabeleceu: yoga, interagir com as pessoas e praia. A minha: ler, escrever e caminhar. De fato, desde o nascimento do bebê, eu não havia lido nem escrito nada; caminhava todos os dias, empurrando o carrinho, mas os dois primeiros prazeres tinham sido deixados de lado. Estava cristalino que eu precisava dedicar um tempo diário só para mim, e foi o que comecei a fazer, depois de uma dose de conversa a dois e estabelecidos os meus horários livres. Funcionou, pois algumas semanas depois, talvez tenham sido várias semanas de deserto sexual, invadi o banheiro enquanto meu marido tomava banho, coloquei os braços ao redor do pescoço dele e lhe disse baixinho:  quero ser dois e ser um.   
Voltando à grande casa cheia de portas e cômodos, num dos quartos, que entrei, observo dois espelhos refletindo cenas idênticas, porém os resultados dos sentimentos não coincidem. Numa delas, eu me divertia com as tarefas ordinárias, na outra, sofria. Levei um tempo para compreender que a forma como eu reagia internamente, diante daquelas situações, mudava a realidade das cenas especulares. 
- Sim, posso escolher - compreendo a mensagem e me esforço para fazê-lo. Repito, em voz alta, para mim mesma.
Passei pela sala de perdas, e, fiz uma reverência com a cabeça. Diante desse cômodo, visualizei a oportunidade de praticar aquela transformação de eventos julgados como ruins em sentimentos positivos. Então, resolvi entrar e me concentrar. Lá conversei com todos os seres que participaram da minha vida e partiram, sem se despedir. Falei o quanto os amo e o quanto as experiências que os envolveram ajudaram a me tornar uma pessoa mais inteira e mais carinhosa.  Conversei também com as pessoas que me magoaram e com as que magoei. Expliquei o meu intento de transformar tudo aquilo em sentimentos positivos, realizando pessoalmente a magia da vida! Senti uma especial leveza e me vi flutuando no amor puro, que acabei de conhecer no nascimento da minha filha.
Na sala do medo, visualizo novos personagens. Medo de que aconteça alguma coisa com a minha filha e eu não possa mais vê-la, medo de fazer algum mal a ela, medo que algo aconteça ao meu marido e aos familiares queridos, medo dos meus pensamentos sombrios, medo da minha variação de humor, medo da minha dose de loucura, medo de perder a memória e o vigor físico, medo de perder a fé na humanidade, medo de me tornar uma pessoa sem entusiasmo, medo de não tentar realizar os meus sonhos e medo de me acomodar. Cheguei a sentir angustia, a pensar em voltar a trabalhar imediatamente, fazer um seguro de vida, economizar para a faculdade e terapia da minha filha; quando me vi, os olhos estavam lacrimejando. Respirei fundo e me lembrei de ser carinhosa comigo. Então, ainda na sala, olhei compassivamente nos olhos de todos eles e disse em tom de paz: é hora de dormir. Fechei a porta e saí, deixando ali a minha ansiedade. 
No corredor de segredos da grande casa, reconheço enfileirados os meus projetos pessoais, alguns fracassos, alguns êxitos e o vislumbre de que a chance de recomeçar poderia demorar a chegar. Estão todos ali aguardando a minha decisão de iniciar um deles para manter a sanidade, antes que a nova avalanche emocional da maternidade recaia no momento da minha subida à montanha mais alta do mundo. Então, peguei um caderno novo e escrevi um termo de compromisso, datado e assinado. 
Tenho, desde então, enchido o caderno de ideias, no pouco tempo que tenho livre. Acredito que eu tenha um constante trabalho em progresso. Isso me cativa, porque combino uma vida pessoal doméstica exclusiva e exaustiva, trocando fraldas, amamentando, dormindo pouco, com uma vida interior de experiências imaginárias. 
Se por um lado, o pós-parto é uma travessia tortuosa, por outro, pode ser uma oportunidade para lidar com uma fonte de energia inexplorada. Aquela energia que cura e traz um aprendizado inestimável. 
Tenho aprendido a pedir ajuda! Nós mulheres somos ótimas em oferecer ajuda mais do que em pedi-la!
Tenho aprendido a deixar claro os meus limites.
Tenho aprendido que não preciso ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa, a profissional mais competente e a melhor dona de casa, para ser amada e respeitada;
Que está tudo bem se nem todos me admirarem; está ok se alguém não gostar de mim.
Voltei a vigiar meus pensamentos e não permitir que eles façam conclusões e saiam ditando as regras da minha vida, nem destruam os meus relacionamentos. 
Aprendi que posso errar e que errar é o jeito mais eficiente de aprender.
Tenho aprendido a me perdoar e a perdoar quem não me perdoa. Aprendi a perdoar até quem não gosta mais de mim. Isso é libertador.
Aprendi que posso ser generosa com os meus sentimentos, ao invés de esperar que alguém os reconheça. Decidi que posso dizer: “olhe, fiquei chateada por você não ter retornado a minha ligação, quando eu precisava falar com você. Mas entendo que você esteja ocupado!”
Na sala de espelhos, redescobri prazer nas coisas simples: tomar café, tomar banho, lavar o cabelo, dormir etc. A vida ordinária tem seus requintes e segredos.
Aprendi a dizer que estou ocupada na hora do meu lazer de ler.
Aprendi que a vida é minha melhor amiga.
Aprendi que não preciso ser complacente para ser querida.
Aprendi a gostar das partes do meu corpo que não voltaram a ser como antes, e, a gostar das partes que antes não gostava.
Aprendi a usar o tempo e o espaço do pós-parto para criar algo, ao invés de permitir que o seu lado sombrio destruísse o meu relacionamento comigo e com as pessoas que amo. 
Aprendi que meu corpo é minha língua nativa. 
Compreendi a semiótica do puerpério; ele pode ser uma porta aberta para diversos cômodos, alguns mais sombrios, outros luminosos, entretanto, sempre poderemos escolher em qual deles entrar.
Desde que me tornei mãe, desejo que o mundo melhore rápido. Não estou falando em termos de política-econômica, pensei em termos amorosos. Por essa razão, passei a desejar a todas as pessoas próximas ou neutras que gozassem da raiz da felicidade e que se livrassem da raiz do sofrimento. Quero amar mais. Amar todos os dias, todas as pessoas, preencher essa solidão com amor e gratidão aconchegante. 
De dentro de um desses cômodos, nasceu o projeto pessoal de registrar os detalhes da minha gestação. Acho que cheguei tão perto de como tudo aconteceu, que me peguei com saudade da sensação daquela bola quente saindo de dentro de mim!

Foi, então, que renasci.

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