quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Gravidez aos 40: informação

II - Informação 

15 de fevereiro de 2015
14 semanas
Na família, as mulheres da geração da minha mãe, tias e avós tiveram parto normal, enquanto que as mulheres da minha geração (irmã e primas) fizeram a cirurgia, o que dava a aparência de uma evolução dos tempos. 
- Pra que sentir dor? A cirurgia é mais seguro - diziam alguns médicos conhecidos da família. 
Aparentemente foi isso que a nossa geração mais ouviu, como se tivéssemos ganho um privilégio e uma dose extra de segurança. 
A mamãe contou que, no tempo dela, parir era natural. 
- A mulher sentia as contrações e paria, era só isso. 
Ela narrou que os partos dos três filhos foram relativamente rápidos e que logo depois do parto já se sentia pronta para cuidar dos filhos, apesar de ter tido a vulva cortada (episiotomia) pela médica três vezes (uma por parto). 
- Isso incomodou, lembro bem! Outra coisa que me incomodou foi ver gestantes terem suas barrigas empurradas, no trabalho de parto; minha médica não fez isso comigo, graças a Deus - comentou minha mãe.
As mulheres, da minha geração da minha família, foram para mesa de cirurgia, por livre escolha, segundo elas. No entanto, ninguém lhes perguntou: 
- Você já leu sobre os benefícios do parto normal? Já ouviu falar sobre o coquetel hormonal que ocorre unicamente no trabalho de parto?
Aparentemente, a escolha delas foi fundamentada na suposta evolução dos tempos: a mulher não precisa sentir mais dor e a cirurgia é mais seguro; e, porque, no final, o mais importante é mãe e filho estarem lado a lado.
Porém esse argumento foi inserido no imaginário das mulheres sem qualquer comprovação. 
A questão da escolha envolve três pontos: primeiro, o direito ao esclarecimento, segundo, o direito à escolha fundamentada, seja nos benefícios do parto vaginal tanto para a mãe quanto para o bebê, ou nos benefícios da cirurgia para aquela mãe, e terceiro: o direito ao coquetel hormonal, que é singular no trabalho de parto, e quarto: ser informada que uma cirurgia tem seus riscos. 
No ano 2000, quando a minha irmã tinha vinte e um anos, ela teve seu primeiro filho. Nessa época, ainda não havia a avalanche de informações e comunidades que a internet dispõe hoje. Obviamente, como a maioria das mulheres da sua geração, a cesariana foi a opção divulgada como mais segura.
Ao telefone, em conversa com ela sobre o assunto, ela acredita ter escolhido a cirurgia como sendo a melhor e mais segura opção. Eu lhe conto entusiasmada a minha busca pelo parto natural e seus benefícios, e, percebo um sentimento dúbio em seu tom de voz. Pode ser só minha impressão. Então, continuo expondo as histórias e informações que tenho obtido sobre o tema.
- Quando você fala sobre o parto natural, sou arrematada por uma sentimento estranho e me pergunto: será que fiz errado? Sou menos mãe, por isso? - ela me interrompe.
Isso me provoca uma pausa interna. Então, mudei de assunto e lhe perguntei sobre a sua vinda ao Rio, no início de julho. Ela me passou as datas e fiquei feliz em saber que, em breve, nós nos encontraremos. 
É óbvio que o fato de um mulher ter tido filhos por cirurgia não a faz menos mãe. Há mulheres que optam pela cirurgia, porque entendem que essa é a melhor opção. Assim como há mulheres que optam pela adoção e que são tão mães quanto qualquer outra. A escolha pessoal faz parte da autonomia de cada mulher. 
Quando a minha irmã teve o primeiro filho, no ano 2000, eu não tinha as informações que tenho hoje sobre os benefícios do trabalho de parto. Se eu tivesse tido filho no mesmo período que ela, ou seja, sem acesso à informação como temos hoje, possivelmente eu teria me submetido a uma cirurgia. Lembro que era largamente divulgado entre os médicos amigos da nossa família,  naquela época, a tranquilidade de uma cesariana. 
Também lembro que ao vê-la amamentando, com os seios rachados e sangrando, eu lhe perguntava “por que você não dá uma mamadeira, até o seio melhorar?”, enquanto ela me falava segura de como amamentar no peito exclusivo era a melhor coisa a fazer, seguindo o seu instinto materno.
Hoje eu jamais lhe faria essa pergunta. Ao contrário, teria dito, “você é forte e carinhosa de estar insistindo na amamentação”. Hoje é ela quem me dá força e encorajamento para, quando for a hora, insistir na amamentação e me esclarece as possíveis dificuldades que terei de enfrentar para conseguir amamentar. 
- Você tem que persistir e aguentar firme. Pode sentir muita dor e até chorar, mas depois de duas ou três semanas, é só prazer - diz a minha irmã.
Quando eventualmente voltamos ao assunto do parto, sua voz continua dúbia, e uma inquietude envolve o meu coração. Se eu pudesse, eu faria a minha irmã compreender que fez o melhor para ela, considerando as informações que tinha, e, que eu a vejo como a mãe mais carinhosa do mundo. Ela nasceu para ser mãe, é mãe dos filhos e também dos nossos pais. 
Buscar informação em família é uma oportunidade para se deparar com as ilhas sentimentais uns dos outros. Às vezes, pode parecer desconfortável, mas é quase sempre enriquecedor. 
Depois de conversar com as mulheres da minha família, é possível observar que algo ocorreu no lapso temporal entre a geração da minha mãe e a minha geração no quesito do parto: um ato natural tem sido substituído, sem muito questionamento, por uma cirurgia.



18 de fevereiro de 2015
14 semanas e três dias
Na escola, aprendemos sobre os fenícios, o paleolítico, homem de neandertal, número de oxidação, educação sexual, dentre outros assuntos, porém nada sobre como nascemos. Os benefícios do nascimento natural para mãe e filhos é quase um tesouro perdido. Então o que aprendi na escola não me desbravou nenhum caminho para o resgate dessa relíquia.
Hoje temos a internet, como fonte de informação. Além da internet, pude recorrer a uma amiga, que pariu recentemente no Rio. Essa amiga é direta; diante de um problema, entra sem bater à porta, pega-o pelo pescoço e o resolve; acho até que indefinição lhe provoca azia. A sua capacidade de mudar o cenário da própria vida é capaz de tirar os meus pés do chão. 
Foi esse tesouro de amiga que me apresentou à palavra doula e me explicou, rapidamente, o trabalho dela. 
- Doula é a mulher que vai te ajudar com informação, exercícios e posições, que facilitam o ato de parir. Sem doula dificilmente você vai conseguir parir naturalmente. Corre atrás, vale a pena! - ela resumiu. Num ímpeto de entusiasmo, ela me emprestou o livro “Parto com amor” e o filme “Renascimento do parto”, para me incentivar a buscar o melhor parto possível para mim.
Contagiada pela euforia dela, perguntei-lhe como acharia uma doula de confiança em Niterói. Sem titubear, ela me passou o telefone de uma amiga, que morava em Niterói e conhecia uma doula. Foi através da amiga da minha amiga que cheguei à minha doula. 
Mas antes de chegar à minha doula, procurei informações sobre doula na internet e entrei em contato com uma outra. Conversei com ela. Apesar de ter gostado dela como pessoa, o pacote que ela me oferecia não me agradou. Por isso, resolvi conversar com a doula, indicada pela amiga da minha amiga.
A palavra doula é de origem grega e significa “servente da mulher”. A doula é treinada para dar suporte físico e emocional ao longo da gravidez, durante o parto e no pós parto. O propósito da doula é ajudar a mulher a ter o melhor parto possível, empoderando a experiência do nascimento. Eu precisava desse suporte para permitir que meu medo existisse, sem me destruir emocionalmente.
Liguei, então, para doula indicada e lhe contei sobre as perdas e o medo remanescente. Ela me disse que compreendia esse medo, pois ela também já havia passado por perdas semelhantes, e, garantiu que ficaria tudo bem quando eu visse a carinha do bebê! Falei da minha idade e lhe perguntei se isso era um empecilho para o parto natural. 
- Mito. Esse argumento de que mulher de quarenta anos tem que fazer cesária é mito! Pode perguntar à sua médica! - disse a doula. 
Expliquei que estava sem médica, em razão da nossa falta de consenso em relação ao parto. Expliquei também que considerando que parir naturalmente se tornou algo alternativo, eu sentia necessidade de encontrar uma comunidade, que tivesse vivenciado, ou estivesse vivenciando, a busca do melhor parto possível. 
- Você está no lugar certo. Temos um grupo de gestantes, que se encontra todo mês, e, conforme a gravidez avança, nós nos encontraremos em grupos menores uma segunda vez no mês, pelo menos. Vou te passar os dados pelo WhatsApp - disse a doula.
Antes de terminarmos a nossa conversa telefônica, marcamos de nos conhecer pessoalmente. 
A doula veio até a minha casa, no horário marcado. Admito que tinha uma ponta de receio. 
- Doula? Será que vou me sentir à vontade com uma mulher estranha no parto? - silenciosamente me indaguei. Porém, ao ver aquele rosto tranquilo e risonho, aqueles cachinhos pretos ao redor da cabeça, a ponitinha de receio discretamente desapareceu; e após alguns minutos de conversa franca, expondo as angustias e incertezas do coração, percebi a sua capacidade de sentir comigo. Em seguida, ela falou da sua experiência e vocação. Então, foi impossível não gostar dela. 




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