quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Gravidez aos 40... (II)

Gravidez aos 40 
Continuação Capítulo Medo - II
Texto anterior - clique aqui.  
15 de dezembro de 2014
6 semanas e um dia 
Passei os últimos cinco dias escrevendo. Escrevi cartas a todos os seres. Escrevi ao universo por me sentir parte dele, a Deus pelo privilégio da fé, ao mar por me permitir navegar pelas ilhas sentimentais de nós mesmas, ao tempo por ser inexorável, ao espaço por me conectar com o vazio, à minha escrivaninha por ter suportado o peso dos meus pensamentos; e, finalmente às mulheres que estão sofrendo ou sofreram com perdas, porque embora eu não saiba exatamente como cada uma sente, gostaria de lhes transmitir o meu carinho. Isso tudo na tentativa de demover o evento de janeiro de 2014 da zona cinzenta dos sentimentos. 
Não sei se por medo ou por vergonha, não havia contado a ninguém sobre aquele segundo aborto espontâneo, ocorrido em janeiro de 2014. Talvez porque um segundo aborto não seja considerado normal pelos médicos, e ninguém sabia o motivo. Não havia escrito no meu diário nada detalhado a respeito de como tudo aconteceu. Reli o pouco do que havia escrito na época e tudo me soou superficial. No fundo, eu tentava esconder aquele fato até de mim mesma. Talvez porque um segundo aborto não tenha a desculpa estatística do primeiro aborto na primeira gravidez, que é visto pelos médicos como normal. Um segundo aborto espontâneo dava indícios de maus presságios. Pelo menos era o que eu pensava. Aquela ilha de sofrimento precisava ser visitada e se tornar um lugar de paz. Isso era certo.
Logo após o primeiro aborto espontâneo, sem dúvidas, um certo nível de obsessão  ocupou um espaço enorme na minha cabeça. Quase todas as noites, eu inventava uma desculpa para irmos para cama mais cedo. Era uma espécie de corrida contra o tempo. Transávamos como dois adolescentes, que recém descobriram o sexo. A cada final de mês, aquela tensão para saber se iria menstruar ou não. Antes de chegar o dia do atraso, eu já comprava o teste de gravidez na farmácia; e passado um dia de atraso, eu já fazia o teste, que dava negativo. Eu não queria acreditar que ainda era cedo para engravidarmos de novo. 
Ao invés de relaxar e deixar fluir, as tentativas foram intensificadas intencionalmente, e, no início de dezembro de 2013, estávamos grávidos de novo. Decidimos não contar nada a ninguém, nem mesmo aos nossos familiares, para evitar dar explicação caso desse errado, bem como, evitar o sofrimento familiar e a curiosidade mórbida de alguns, com aqueles comentários que só causam constrangimento: “é a vontade de Deus”, “Deus não dá mais do que podemos carregar”, “se eu tivesse no seu lugar faria a curetagem imediatamente” etc. 
Na primeira gravidez, fiz repouso absoluto. Dessa segunda vez, não sabia se repousava, ou se levava a vida normal. Busquei informações sobre o que comer, o que fazer, como dormir e evitei relações sexuais. Tudo era motivo de tensão. 
No início de dezembro de 2013, com poucas semanas de gravidez, decidimos visitar nossos familiares e passar o natal no Brasil. Pesquisei se haveria problema pegar voo nesse fase da gravidez e se poderia passar tranquila pelo detector de metais; foi uma época de tremenda paranóia. Eu temia exaurir meu marido com os meus excessos. Contudo, ele permaneceu ao meu lado, sem comentar como o meu comportamento estava obsessivo no início daquela gestação. Era 15 de dezembro de 2013 quando pegamos o voo para o Rio, carregando esse segredo. 
Minha irmã havia pedido para que eu fosse à Fortaleza fazer uma surpresa no aniversário do meu afilhado, filho dela. Só de pensar na hipótese de pegar outro voo naquela circunstância, minha apreensão aumentava progressivamente. Entretanto, não tive como dizer não e teria me arrependido se o tivesse feito. De modo que peguei o voo e me encontrei com a minha irmã e meu afilhado em Fortaleza para passarmos o dia brincando no beach park
Propositadamente evitei os brinquedos, que poderiam causar algum impacto na gravidez. Devo ter ficado tão apática aos olhos do meu afilhado, que acostumado com minha energia e alto astral, ele não se continha: “dinda, você cresceu, você agora faz parte do triste mundo dos adultos”. 
Aquele foi um dia triste, porque me dei conta de que a tensão em mim estava ultrapassando as minhas próprias barreiras e isso era notório até para uma criança de doze anos.
O clima natalino e o ambiente familiar arrefeceram um pouco a minha aflição. E o fato de ninguém saber nada sobre o assunto também ajudou a aliviar a pressão de que tudo desse certo dessa vez. Os almoços nas casas das tias e o reencontro com as primas e amigas preencheram os meus dias e fizeram com que passassem mais rápido. 
No dia do natal, fomos todos jantar na casa da minha madrinha. Eu não me sentia em bom estado, não sabia exatamente o por quê. Não era possível voltar para casa mais cedo para me deitar e repousar um pouco. 
Para minha sorte, a neta, de dez anos, da minha tia pediu para me maquiar. “Só se eu puder ficar deitada”, respondi. Ela aceitou a condição. Lá fomos nós ao quarto onde ela me maquiou, enquanto eu ficava deitada na cama. Ela me maquiou várias vezes, testou todas as cores de sombras do seu estojo de maquiagem. 
Quando me levantei, já era quase a hora de jantar. Sentei ao lado do meu marido à mesa e lhe mencionei que gostaria de voltar para casa mais cedo, para descansar.  Na primeira oportunidade,  depois de jantar, inventamos uma desculpa e voltamos para casa. 
Em casa, percebi um pouco de sangue na roupa íntima. No decorrer da noite, fui várias vezes ao banheiro para verificar se havia algo mais. Nada. 
No dia seguinte, por volta das nove horas da manhã, liguei para minha médica para lhe contar o que havia acontecido. Ela disse que isso era normal e não necessariamente indicava algo ruim e me pediu para que fizesse uma ultra tão logo voltasse para o Rio. 
Apesar da recomendação de me submeter um ultra antes da oitava semana, decidi fazer a ultrassonografia somente quando completasse oito semanas. Antes disso me parecia perda de tempo. De que adiantaria ver o saco gestacional e na oitava semana não ouvir o coração do bebê, como na primeira vez? Eu estava decidida a esperar. 
Voltamos para o Rio, e mantive um discreto repouso, pois não queria que nossos familiares, que tínhamos por perto, desconfiassem de nada. 
Durante esses dias até a oitava semana, fomos à praia, fiz caminhadas mínimas, e, tinha sempre uma desculpa para voltar para casa e dormir mais cedo. 
No Rio, revi minhas amigas e, apesar da tentação, não lhes contei nada, para evitar eventual sofrimento em conjunto, e conversávamos sobre assuntos diversos, que me acalmavam.
No dia seis de janeiro de 2014, a oitava semana havia finalmente chegado. Fomos meu marido e eu ao laboratório fazer a ultrassonografia. Antes de sentar naquela maca, já sentia as lágrimas nos meus olhos. Já deitada, permaneci, apertando a mão do meu marido e fixei o olhar no monitor, que estava diante de nós. Era possível ver e ouvir o que houvesse. 
Não ouvimos. Logo foi possível perceber o embaraço da médica ao descrever o que estava ocorrendo. Expliquei que já havia sofrido um aborto e ela se sentiu mais à vontade para dizer o que já percebíamos pelas imagens e ausência de som. 
Ligamos para minha médica para contar o que havia acontecido e, antes de falarmos o que faríamos dessa vez, ela se adiantou: “você vai optar por esperar que a natureza trabalhe por você, não é mesmo?”
Para nós, a escolha também era óbvia. Leituras de depoimentos sobre casos de abortos consecutivos e opções do que fazer passaram a fazer parte da minha rotina naqueles dias. Agora era torcer para que estivéssemos a sós quando tudo acontecesse. 
Diferentemente do que me ocorreu em julho de 2013, tive, desde o resultado da ultrassonografia, sangramentos leves ao longo de quinze dias, como se o meu ciclo menstrual fosse recomeçar a qualquer momento. Li depoimentos de mulheres que passaram por isso e não tiveram contrações, tiveram apenas um pouco de sangramento por alguns dias. “Quem sabe eu teria essa sorte dessa vez”, eu mentalizava.
Como ninguém no Brasil sabia, passei os meus dias no Rio, como se estivesse de férias. Fui à praia, fiz longas caminhadas, almocei com amigos quase todos os dias e fazia questão de conversar sobre assuntos do mundo, evitando temas pessoais que despertasse qualquer emoção, que eu estava sentindo. 
Estar morando fora do Brasil provoca certa curiosidade nos amigos e me fazia sentir mais esperada; meus amigos sempre davam um jeito de me encontrar. Olhando de longe, nem parecia que eu estava passando por um turbilhão emocional. 
Tudo estava ocorrendo tranquilamente até o dia que meu marido recebeu um telefonema, exigindo que ele voltasse ao trabalho mais cedo. Além de amantes, somos grandes amigos; eu sabia que ele tinha que voltar e queria fazer o trabalho que lhe estava sendo solicitado. 
Apesar do medo e do aperto de ter que passar por uma situação delicada sozinha, não tive vontade de lhe pedir que ficasse nem fiz qualquer chantagem emocional. A situação, por si só, já demandava que mantivéssemos o equilíbrio a todo custo. Por isso, decidimos que ele voltaria mais cedo para Alemanha, e eu retornaria no final de janeiro, conforme previamente agendado. Preferia estar no Brasil, caso tivesse que ir ao hospital, embora eu não contasse, no fundo, com essa hipótese; esperava estar em casa, como da outra vez.
Após deixar o meu marido no aeroporto do Rio, voltei para o apartamento que alugávamos em  Copacabana. Entrei pela área de serviço, fechei a porta atrás de mim e me sentei no chão. Eu me senti inteiramente sozinha e pensei que a noite poderia ser longa. Tirei da bolsa meu caderno e uma lapiseira. 
Para me preservar dos pensamentos notívagos destruidores, busquei rapidamente o que escrever e registrei no meu caderninho detalhes positivos da minha vida, para inserir, mais tarde, no meu pote da felicidade. 
Agradeci pelos meus amigos e familiares, citei o nome de cada um e registrava uma cena engraçada que havíamos passado juntos; agradeci pela minha saúde e pela vida que tinha com o meu marido. Anotei os lugares onde tínhamos morado, as viagens e relembrei algumas histórias. Retirei os pensamentos do caderno, fazendo tiras e os dobrei como se fosse fazer um sorteio. O pote da felicidade transbordou e logo era de manhã.
O mar e as amigas fizeram com que aqueles dias passassem mais rapidamente. Já era sexta-feira, véspera da viagem, e nada além de um minguado sangue havia saído. Achei que dessa vez seria completamente diferente. 
Pensei seriamente em adiar ou cancelar o voo. No entanto, comecei a arrumar a minha mala. Meu corpo parecia assumir o comando e a mente o acompanhou. Quando essa união acontece, sinto um conforto extraordinário e saboreio a minha própria compaixão. 
Enquanto arrumava a mala, recebi um telefonema do representante do consulado alemão, falando a respeito de um documento, que havia ficado pronto. Não hesitei, fui ao centro do Rio buscar o tal documento. 
Aproveitei e marquei um almoço com um amigo lá no centro mesmo. Geralmente como um prato pequeno, mas senti uma vontade de comer o prato mais regado do cardápio. 
No caminho de volta para casa, parei em Botafogo para pegar um tolken que o banco estava exigindo que eu usasse ao acessar o internetbanking. Saí do banco, e me dei conta de que estava ao lado da casa de um grande amigo que eu não via há uns três anos, porém nunca perdi o contato. Eu lhe enviava postais e e-mails. Ele também já havia morado na Alemanha. 
Eu sabia que ele trabalhava em casa e sempre deixava a porta do apartamento aberta, para os clientes. Coisa rara e inacreditável hoje em dia. Decidi, então, passar lá só para dar um abraço nele. 
O porteiro, do prédio, era o mesmo dos tempos que eu frequentava os cursos de mitologia grega ministrados pelo meu amigo; pedi para que ele não me anunciasse, pois queria fazer uma surpresa. Antes de entrar no apartamento do meu amigo, ouvi o piano, ele toca há alguns anos. O meu amigo é do tipo obcecado, passou a trabalhar menos e ganhar menos, só para dedicar mais do seu tempo ao seu sonho de tocar piano. 
Entrei de mansinho, o cachorro dele, um cão da rodézia, parecia ter me reconhecido e veio falar comigo primeiro, meu amigo estava ao piano na sala, tocando Bach, quando me viu. 
- Maravilhosa, não acredito, você por aqui - foi o que o meu amigo disse ao me ver com o seu cachorro. Logo se levantou do banco e veio falar comigo de perto. Ele é bem mais alto que eu e me abraçou tão apertado que tirou os meus pés do chão. Acho que era disso que eu precisava.
Por que alguém daria aula de mitologia, em pleno século XXI, ano 2014? Quem se interessaria? Como dizia ele, hoje em dia, não estamos mais familiarizados com a literatura do espírito; estamos interessados nas notícias e nos problemas do cotidiano. O apartamento do meu amigo era blindado às notícias e problemas do dia-a-dia. Ele acreditava que, no fundo, todos buscamos o sentido da vida. Por isso, encontrava sempre quem quisesse aulas dessa natureza. 
Naquele apartamento, nossa atenção voltava-se à vida interior. Ele havia conseguido transformar a sua casa numa espécie de santuário. E logo falou da magia de estarmos vivos, dos valores eternos, do amor, da gratidão, do respeito e da honestidade.
Eu não queria falar sobre mim, não queria sair daquela atmosfera para falar de coisas tristes. Pensei em lhe mencionar apenas que havia sofrido um aborto há seis meses, e, não falar nada do que estava passando por um segundo aborto naquele exato momento.  
Consegui e fiz questão de me despedir em seguida, para me desviar do meu próprio assunto. 
De novo ele me abraçou forte, tão forte que senti os filetes de sangue descerem pelas minhas pernas. Consequentemente, não foi possível me esquivar mais. Contei-lhe tudo o que estava acontecendo naquele momento. E ele, surpreso, não me deixou sair de lá, até que tudo estivesse bem. Pedi para que ele me deixasse usar o banheiro. Ele me acompanhou até o banheiro e me deixou na banheira, pendurou a minha roupa no cabide e me proibiu de fechar a porta do banheiro. 
Por via das dúvidas, o meu amigo posicionou o cachorro como vigia no corredor, em frente à porta, e se sentou ao piano e tocou as sonatas de Bach. Esse poderia ter sido o pior dia da minha vida, mas meu amigo e Bach não deixaram. 
Em determinado momento, meu amigo fez uma pausa e me trouxe água, sal, fruta e absorvente, e deixou ali ao meu alcance. Eu não tinha ideia de quanto tempo estava ali; só sabia que havia chegado no início da tarde. 
Algum tempo depois, não sei precisar quanto tempo, o meu amigo apareceu novamente à porta, para perguntar como eu estava. Balbuciei que estava melhorando e lhe perguntei há quanto tempo eu estava ali. Ele me respondeu laconicamente, dizendo que eu estava lá há algum tempo. Eu realmente havia melhorado, mas ainda não conseguia levantar sozinha e lhe pedi ajuda para me levantar e me vestir. 
Quando saí do banheiro, percebi que estava anoitecendo e disse que tinha que ir embora; ele não deixou e me levou até o quarto para deitar. Eu me recusei a deitar na cama dele que estava linda coberta com uma colcha de cambraia de linho branca. Eu lhe falei que se me deitasse na cama, eu sentiria tontura, e, preferia deitar no chão. Inicialmente ele protestou, mas insisti que o chão seria mais seguro para mim, pois estava com a pressão baixa. 
Ele se resignou e me trouxe um edredom e uma almofada. Eu me deitei ao lado direito da cama, enquanto ele se deitou na cama para me dizer que os alunos deles chegariam em uma hora, mas que eu poderia ficar o quanto quisesse.  
Eu pedi mais água, uma maçã e um balde, pois havia percebido que as contrações estavam começando e eu poderia querer vomitar, pois eu havia vomitado da outra vez. Quando ele me entregou o balde, eu lhe pedi desculpas por estar dando tanto trabalho quando ele tinha que receber os alunos. 
- Graças a Deus, você está aqui e não sozinha em casa. 
Parecia arte divina eu ter ido visitá-lo justo naquele dia, naquele momento. Eu lhe disse que tinha que voltar para casa. Ele retrucou, dizendo que eu só sairia de lá acompanhada. E ele estava certo. 
Eu não teria a menor condição de sair sozinha e pegar um taxi para casa. Ainda deitada no chão, eu lhe pedi o telefone para ligar para uma amiga. Liguei para o celular dela e lhe perguntei onde ela estava. Ela me disse que estava na barra e ficou feliz ao me ouvir. Eu lhe disse que precisa lhe contar um segredo e que ela tinha que vir até Botafogo para me buscar. Ela percebeu que o meu tom era sério e concordou. 
A minha amiga chegou por volta das 21:00. Obviamente ela não havia imaginado que, para chegar até mim, teria que passar no meio literalmente de uma aula de mitologia. Meu professor a conduziu até o quarto. Ao me ver deitada no chão do quarto, ela disse que iríamos imediatamente ao hospital. 
Meu amigo a contestou, dizendo que o pior havia passado e que eu estava deitada no chão por escolha própria. Ele interpretou bem o que eu queria dizer à minha amiga. Eu disse ao meu amigo para voltar à sua aula e disse para minha amiga que ela se deitasse na cama e que aguardasse a minha melhora. 
- Nada mais exótico; um astrólogo, professor de mitologia, dando aula na sala de casa, e você deitada no chão do quarto, tendo contrações; contando, ninguém acredita.”, comentou a minha amiga, deitando-se resignada na cama.
A minha pressão já não estava tão baixa, eu percebia; as contrações pararam de repente. Já eram quase dez da noite quando senti uma vontade de ir ao banheiro; o curso havia acabado, e somente uma aluna restava na sala com o meu amigo. Fui ao banheiro e observei que o processo de expulsão havia acabado; eu estava bem e poderíamos ir embora. Voltei ao quarto e disse a minha amiga que estava pronta para ir embora para minha casa. “De jeito nenhum”, ela respondeu, e, completou, dizendo que iríamos para casa da mãe dela, que nos aguardava para jantar. Aceitei, pois estava com fome e era melhor estar bem acompanhada. Nós nos despedimos do meu amigo e da aluna dele e seguimos para a casa da mãe da minha amiga.
No jantar, quando lhe contamos o que me havia passado, a mãe dela disse que eu deveria ter feito o procedimento no hospital, que eu não sentiria nada com anestesia. Eu lhe expliquei que “não sentir nada” era um problema para mim; eu queria sentir o processo físico, porque acredito que isso alivia o lado emocional. 
Ela contou que optou pela cirurgia cesariana no nascimento dos dois filhos e não hesitaria em se submeter a uma cirurgia, para se resguardar dos efeitos da natureza. “Eu não temo a natureza”, contestei. “Deixa você ficar mais velha...”, retrucou a mãe da minha amiga, e, rimos muito durante o jantar. A mãe da minha amiga é daquele tipo de pessoa cujas falas estão vinculadas a uma risada, é positiva e sob nenhuma hipótese reclama da vida que tem. Era a pessoa certa com quem jantar, depois de um dia difícil como aquele. Eu lhe perguntei se ela tinha amamentado. “Sem dente foram só os meus filhos; com dente, perdi as contas”, respondeu, provocando as nossas risadas. Depois do jantar, caí na cama e dormi. 
Essa parte da minha história era um segredo. Nem o meu diário daquela época conheceu tantos detalhes, como agora. Nem eu lembrava que havia vivenciado tantos momentos compassivos, apesar daquela circunstância. Nem imaginava que me faria tão bem contá-la detalhadamente. Escrevendo essas cartas, finalmente, passei a história daquela ilha a limpo. Já me sinto mais leve.
Sei que essa parte da minha história não é uma parte feliz. Porém eu a compartilho, primeiro porque ninguém me confessou casos consecutivos de insucessos nas gestações, o que me deixou isolada na ilha do sofrimento até aprender a sair de lá, e segundo porque apesar do meu histórico de dois abortos espontâneos e dos 41 anos, sinto esperança de que o melhor está por vir.
A carta às mulheres, embora tenha sido curta, deve ser aqui transcrita, pois enquanto eu a escrevia, coloquei bastante carinho nela, com o ousado objetivo de ativar a tecla de relaxamento nas mulheres, que estão passando por angústias semelhantes.
Queridas mulheres que estão sofrendo ou sofreram alguma perda,
Ao que me parece, cada pessoa vive a perda de uma forma particular. Para mim, foi uma mescla de sentimentos. Foi dor. Foi arrependimento de ter contado sobre a gravidez cedo demais; foi raiva por ter que ouvir comentários desatentos de pessoas que amo; foi medo de aceitar o que estivesse por vir; medo de que acontecesse tudo de novo. 
Eu queria abandonar o passado e recomeçar, como se fosse possível esquecer tudo, por decreto.
Tinha a impressão de que uma parte de mim também tinha partido, mas ao mesmo tempo, eu queria resgatá-la. Isso só aumentava a dor. 
Enquanto vivia esse turbilhão emocional, não imaginava que o mais difícil não é a perda em si, mas o dia seguinte, e, o outro dia e outro, e, a vida que deve seguir. Porque não sabemos como vivenciar um luto; se devemos ficar em completa clausura emocional, ou pedir ajuda. Nossos familiares e amigos, geralmente, tampouco sabem como lidar com a perda do outro. No fundo, é um assunto que ninguém quer tocar.
Então, tomei coragem para conversar sobre as perdas com pessoas próximas, aceitar aquela tristeza e dá o tempo necessário para que aquelas perdas também cumprissem a sua missão.
Soa cliché dizer que vai passar, e, que nessa ilha de sentimentos, que parece infértil, vai brotar uma capacidade de amar mais profunda. Mas simplesmente passa, o que não garante que será esquecido. 
Acontece de repente, não sei se por milagre. Sei dizer que uma espécie de amor próprio floresce e uma voz doce anuncia uma nova fase. Ao lado desse amor, floresce uma compaixão por todos que sofrem, não importando o motivo, porque não há motivo melhor ou pior. 
Não sei precisamente quando, durante a jornada da vida, passei a ser mais carinhosa comigo e mais grata com o mundo. Posso afirmar que, agora de súbito, eu me descubro grávida, aos 41 anos, depois de ter sofrido dois abortos! O resultado do exame de sangue foi positivo e o nível de Beta HCG está nas nuvens. Agradeço aos céus pela força da natureza.
Então saibam que vocês não estão sozinhas, permitam-se viver o momento de tristeza, e, acreditem que vai passar; enquanto isso, cuidem-se como se estivessem cuidando da melhor amiga!
Carinhosamente,
Sua amiga de jornada
ps.: por favor, atentem-se para a sua nova fase, porque ela deve estar batendo à porta, quando vocês menos esperarem.

ps.: os altos e baixos continuam, porém eles passam melhor quando são compartilhados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário