quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Gravidez aos 40: grupo de apoio

22 de fevereiro de 2015
15 semanas 
Logo no primeiro encontro do grupo de apoio às gestantes, a doula esclareceu o seguinte: “A forma como cada mulher sente e deseja o nascimento do filho tem que ser respeitada. Para algumas mulheres, a melhor opção pode ser uma cirurgia cesariana, se esse for o desejo íntimo delas e não do parceiro ou do médico. Há também casos nos quais a mulher deseja muito o parto natural, mas o desfecho é uma cirurgia; e a mulher tem que se preparar para lidar com eventual frustração da sua expectativa.” 
Vou ter que trabalhar essa questão, pois esse desfecho provocaria em mim uma frustração, sem dúvida! Sinto.
O encontro de grávidas toma a forma de roda, numa casa de sala ampla, que mantém as portas e janelas abertas, enquanto há conversa por lá. Cada pessoa, que chega, conta o porquê de estar ali, suas expectativas e receios. Uma roda composta por mulheres, homens e crianças. 
Nesse encontro, ouvimos histórias de perdas, seguidas de lindas histórias de parto! Cada história partilhada ajuda a cicatrizar o sentimento de perda e faz brotar em mim esperança e autoconfiança.
Com as informações compartilhadas ali, os mitos e desculpas para realização, sem necessidade, de uma cirurgia cesariana caem por terra. 
Eu acreditava no mito: depois de uma cesariana, não se pode ter parto normal por causa dos pontos, ou quando o cordão umbilical está ao redor do pescoço, deve ser feita a cirurgia, dentre outros.
A respeito do mito de parto natural depois da cesária, uma mulher, de tom de voz maduro e definitivo, disse que, na primeira gravidez, optou pela cirurgia cesariana, por acreditar que essa era a forma mais segura tanto para ela quanto para o bebê. Quando engravidou do segundo filho, coincidentemente, recebeu de uma amiga um e-mail sobre os benefícios do parto. A partir daí começou a se informar sobre o parto e se apaixonou pelo assunto; o seu segundo filho nasceu por parto natural, mesmo depois de ter passado por uma cesariana na primeira gravidez. 
Durante o encontro, assistimos alguns depoimentos contidos no filme “Renascimento do Parto”. Nele, as participantes revelam como a busca por informação e aprofundamento do assunto as ajudaram a escolher o parto, de acordo com o anseio de cada uma. 
Depois da mostra de trechos do filme, a roda de conversa continua. Embora o encontro tenha uma pauta pré-agendada, os relatos são os mais variados possíveis, pois o mais importante é que cada uma dê vida a própria voz.
Uma mulher narrou, em tom lúdico, as características do seu útero bicórneo, fazendo com que o bebê não permanecesse de cabeça para baixo. Ela explicou que a médica, que a acompanhou, sabia manusear o bebê, de modo a posicioná-lo de cabeça para baixo. Na última semana da gestação, a médica induziu o trabalho de parto, para evitar que o bebê saísse da posição de encaixe. Nesse caso, a gestante conseguiu parir, apesar de uma característica física, que em princípio dificultaria, ou impediria o parto natural.
Uma jovem, culta e informada, relatou que optou por entrar em trabalho de parto para evitar a prematuridade do bebê, mas que, em seguida, elegeu a cirurgia e estava feliz com o resultado, pois se recuperou bem. 
Outra jovem de temperamento reservado contou que a bolsa estourou, em casa, durante um almoço de família, e, que a família a pressionou para ir imediatamente para o hospital. A jovem disse que não sabe de onde veio tanta coragem, que tocou todos, sem cerimônia, para fora; a jovem teve o apoio da própria médica para aguardar mais sinais do trabalho de parto em casa. O toque de retirada não foi bem recebido, porém foi cumprido. Assim, ela pôde aguardar a doula, fazer exercícios, para somente quando estivesse com uma boa dilatação, dirigir-se ao hospital. E foi o que ocorreu. Lá chegando, sem mistério, pariu!
Uma jovem de traços grandes e marcantes, capaz de transmitir uma calma extraordinária, havia planejado o parto domiciliar. No entanto, teve que ir para o hospital, pois, durante o trabalho de parto, a enfermeira obstetra observou que o bebê estava sentado. Na maternidade, a obstetra a examinou e confirmou que o bebê estava de fato sentado, e já bem próximo de sair. Ao receber essa informação, a jovem respondeu que se sentia bem e gostaria de tentar o parto natural. A médica, coincidentemente, era especialista em parto pélvico, e, em menos de meia hora, a jovem pariu tranquilamente, apesar da circunstância aparentemente desfavorável. Tive a sorte de ver o vídeo desse parto e a jovem transpirava amor e instinto puro!
Houve relatos de mulheres que entraram em trabalho de parto e que, no entanto, as circunstâncias não lhes foram favoráveis e tiverem que fazer uma cesariana de emergência. Houve também quem optou pela cirurgia, por livre escolha. E todas elas estavam felizes, segurando os seus bebês.
A cada relato, mentalizo: “quero ser assim, quero ter essa calma, quero saber me ouvir, quero ter esse senso de humor, e se tantas mulheres conseguiram parir, também posso conseguir! Por outro lado, se tiver que enfrentar uma cirurgia, espero ter a tranquilidade e aceitação que as mulheres do grupo demonstraram ter.”
É possível perceber, no encontro do grupo, que cada grávida reconhece na outra uma amiga nova e inesperada!
A perspectiva de tornar a ver mulheres, tão diversas e tão intuitivas, contribuem em muito para mitigar qualquer medo ou insegurança que os altos e baixos dos hormônios e da vida me provocam.
A minha visão sobre essas mulheres no primeiro encontro pode parecer uma fantasia. “Como perceber as qualidades das pessoas num único encontro?” Não sei a resposta, mas acredito que não há mal algum em enxergar o melhor das pessoas, porque, no fundo, vemos o que queremos.



01 de março de 2015
16 semanas 
Enquanto a barriguinha cresce e os resultados dos exames confirmam a saúde do bebê, procuro uma médica, devotada ao parto natural. 
A doula indicou uma médica de Niterói, que também foi recomendada no grupo de grávidas. Finalmente, parece que uma pessoa disposta a ouvir e a aceitar as minhas demandas. 
Com a nova médica, conversei sobre parto natural e humanizado. Ela contou sobre a sua forma de ver o parto e o nascimento. 
Também me consultei com a médica, indicada por uma amiga. Gostei bastante dela. Porém ela faz parto no Rio e não tem equipe em Niterói. Então, a mais conveniente é a de Niterói.
Eu não tinha intimidade com a nova médica para lhe ligar no meio da noite, para falar do medo ou do sonho louco que eu havia tido sobre o parto. Para isso, eu conto com a doula.
Pode parecer banal, porém, esse apoio, ao longo dos meses de gravidez, ajuda a formar um alicerce de autoconfiança, fundamental para o trabalho de parto. Consequentemente, o medo vem encontrando um lugar pacato para se acomodar. 



05 de março de 2015
16 semanas e cinco dias 
Na 16 semana, é recomendado fazer uma ultrassonografia morfológica do bebê. Nos dias que antecederam essa ultra, meus pensamentos tornaram-se duros e, pode-se dizer, quase abusivos. Fui obrigada a voltar a meditar diariamente, para não entrar num espiral de ansiedade. 
No meu caso, a ocasião exigiu que eu monitorasse a mente a cada minuto. Não foi fácil. Sentei para meditar, o nariz coçou, fiquei inquieta, os pensamentos aceleraram, os diálogos tornaram-se convincentes de que era melhor deixar isso para mais tarde, “Já estou com fome de novo.”, “O que tem para o almoço mesmo?”, “Tem sobra da janta de ontem?”, “Acho que estou com vontade de ir ao banheiro, grávida faz mesmo muito xixi”, e os pensamentos não paravam. 
Quando estava quase desistindo de meditar, lembrei que havia lido um livro de uma monge budista. No livro, a autora recomenda que cada vez que um pensamento tentar dissuadir-nos da meditação, devemos persistir em ficar ali. Portanto, quando as divagações insistirem em nos tirar dali, devemos nos trazer de volta ao presente, dizendo: “fica”. Então, foi o que fiz. “Já estou com fome de novo”, “fica”, “O que tem para o almoço mesmo?”, fica, “Tem sobra da janta de ontem?”, fica, “Acho que estou com vontade de ir ao banheiro, grávida faz mesmo muito xixi”, fica. 
Depois desse exercício, voltei a meditar diariamente e espero continuar até o fim dos meus dias.
Apesar de meditar há alguns anos, confesso que nunca cheguei ao estado de ausência de pensamentos por mais que alguns segundos. O que tenho conseguido é observar o fluxo de pensamentos e separá-los de mim, afastando a ansiedade e mantendo a calma. 
Meditar não só acalma o cérebro, como também, tem trazido reflexões sobre o que realmente importa. 
Para mim, o que realmente importa é o sentido. Quando os pensamentos ameaçam a minha integridade, eu me pergunto: “qual é o sentido disso?”, “Estou acrescentando mais sofrimento ou mais alegria à minha vida?”
Os pensamentos e situações sem sentido estão sendo observados, apesar das dificuldades. Tudo está mudando, por dentro e por fora.
Para as reflexões apaziguadoras, as associações positivas e as coincidências reconfortantes, estou compreendendo, nesse período único na minha vida, o sentido. 
Tenho a nítida visão de que a gravidez é uma oportunidade de desenvolvermos um relacionamento amoroso com nós mesmas. 
Decidi que quero ser uma pessoa melhor a cada dia. “O que faz de uma pessoa uma boa pessoa?” Não estou falando de ser “boazinha ou fazer de tudo para agradar os outros”, estou falando de ser genuinamente boa, mesmo que meus atos sejam julgados como maldade aos olhos dos outros. Porque a bondade deve ter uma ligação íntima com a liberdade de sermos o que somos. Não tem?
Essas são perguntas-chave também. Porque o medo e os pensamentos negativos não fazem de mim uma pessoa melhor, só me tornam obstáculo de mim mesma.
Conforme a gravidez avança, é importante que eu me torne mais positiva e mais carinhosa comigo e com quem quer que seja, porque ser carinhoso é genuíno. 
Aquele sofrimento inicial não faz sentido. Então que ele saia de fininho, para que seu lugar seja tomado por mais compaixão, porque esse sentimento vai provavelmente me ajudar a ser uma pessoa melhor, mais íntegra, genuinamente boa e até mais livre.



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