segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Gravidez aos 40: grupo de apoio e transformação


08 de março de 2015
17 semanas
Os meus desejos são fáceis de serem satisfeitos. No almoço e no jantar, qualquer coisa com feijão, tomate e limão, e no lanche, açaí! 
A cada semana, ganho uns quilos a mais. Se eu tivesse vinte ou trinta anos,  talvez eu estivesse preocupada se estou gorda, se terei estrias ou não. 
Mas a verdade é que me sinto bem com os meus quilinhos a mais. Adicionalmente, os meus exames confirmam as minhas premissas de bem-estar. Isso é o que importa.



15 de março de 2015
18 semanas
No encontro de grávidas mais recente, falou-se bastante sobre a dor do parto; algumas mulheres queriam desistir do parto normal por medo da dor. Isso me fez refletir bastante. 
Por que enfatizamos tanto a dor do parto? 
Obviamente, não fiz essa pergunta ao grupo. Soaria desrespeitoso, uma vez que algumas mulheres depositam o seu medo de parir na famosa dor do parto. Todo medo tem uma razão de existir. Eu também estou tendo que lidar com o meu medo quase que diariamente. Não posso supor que meu medo seja mais válido que o delas. Cada uma sabe o que a amedronta. Mas não podemos nos paralisar, a ponto de deixar de realizar os nossos sonhos e desejos mais íntimos. 
Inúmeras mulheres são levadas a crer que a cirurgia é a melhor opção, porque se evita de imediato as dores do parto. 
Ao que parece, estamos vivendo um período no qual é quase proibido sentir dor. Para dor de cabeça, remédio, para tristeza, remédio, para o medo, remédio, para falta de amor, remédio, para tudo, um entorpecimento. Isso tudo por dificuldade de processar os altos e baixos das nossas emoções. Tenho a impressão de estarmos vivendo entorpecidos por por falta de contato com os nossos sentimentos. 
O que também me levou a refletir sobre isso foi o fato de as mulheres que falam da dor do parto, no encontro, ainda não pariram. Falam de algo que não conhecem, com uma certeza inquestionável. A dor do parto tornou-se uma verdade que amedronta ou repele até quem nunca pariu. 
Por outro lado, as mulheres do grupo, que relatam seus partos, não enfatizam a dor; a maioria delas até a esquecem, por estarem em transe na hora do parto, ou por terem sentido prazer, contudo. Talvez não falem de dor, porque o que sentem tem a significação maior, de experiência íntima consigo própria e com a natureza divina. 
Tenho trabalhado bastante o meu cérebro para desvincular a palavra parto da palavra dor e da palavra medo. E aqui está o que me motiva: agora mesmo há inúmeras mulheres que estão enfrentando com a coragem todos os entraves burocráticos para adotar uma criança; há inúmeras mulheres que estão fazendo tratamento para engravidar, há mulheres que voltaram para casa sem barriga e sem filho, ou cujos filhos estão na UTI, há inúmeras mulheres que perderam seus filhos para o tráfico de drogas, há inúmeras mulheres que tiveram seus filhos arrancados de suas vidas de forma abrupta. 
Essas mulheres falam de uma dor, que realmente conhecem, e a superam, e isso dá poder a elas. Além do mais, soa quase ofensivo dizer a essas mulheres guerreiras “sabe o que é... Estou grávida, está tudo bem, mas... É que estou com medo da dor de parir... Nunca a senti, mas pelo que ouvi falar, é insuportável.”
Então, temer a dor do parto me incomoda e não me dá poder algum. De modo que, vou me esforçar para transformar o medo e a dor em amor! 



22 de março de 2015
19 semanas
Em antessalas de consultórios, conversando com mulheres que já são mães, a frase, que mais escuto a partir do momento que revelo que estou grávida, é a seguinte: “Você nunca mais terá tempo pra nada.”
Quando escuto essa afirmação, sinto um calafrio e indago: 
- Nem pra ler? Tenho disciplina. Só meia horinha por dia, você acha que não é possível?
- Esqueça - retruca a mãe de segunda viagem, numa fração de segundos.
Diante do tom de convicção, não duvido da voz da experiência. Por isso, estou usando cada minuto das minhas semanas de gravidez com a leitura, como se fosse possível criar uma biblioteca interna, para consulta e contemplação. 
Para compensar eventual período de estiagem, tenho lido um livro atrás do outro. Acabei de ler o livro da Christine de Pizan, no qual ela constrói uma cidade de mulheres, motivada pela necessidade de resgatar a fortaleza das mulheres na história. Ela vivia numa época de opressão da suposta superioridade masculina em todos os campos da sociedade da época. Primeiramente, a autora-narradora recebe ajuda da dama da razão, da dama da justiça e da dama da retidão, para iniciar a construção da cidade. 
Durante a construção da cidade, Pizan resgata inúmeras mulheres que marcaram a história pelos seus feitos, resgata as amazonas, as mulheres místicas, as guerreiras, as estudiosas, as que sofreram injustiça... Todas essas mulheres fortes  estavam empoderadas de si mesmas e lutavam numa sociedade bem mais fechada do que a atual. 
Dentro do meu imaginário, eu me uno a cada mulher, convidada para construir a cidade de Pizan. Cada uma delas tinha sido protagonista da sua própria história. Então, penso nelas também, e, na coragem e na força que elas buscaram dentro de si mesmas para superarem as dificuldades e resgatarem a esperança e o próprio poder. 



29 de março de 2015
20 semanas 
Enquanto um serzinho mexe-se sem cerimônias dentro de mim, sinto-me como todas as fêmeas da natureza. Percebo uma vontade de proteger os que precisam de cuidado, uma força e uma coragem de enfrentar o que vier por aí. 
Tenho pensado na coragem de todas as mulheres do mundo. Penso na alegria de ter um filho, parido ou adotado, e, no sofrimento de perdê-lo. Tanto num ponto quanto no outro, não importa, somos todas irmãs siamesas de sentimentos. Queremos essa alegria, e, simultaneamente, tememos o sofrimento da perda. 
Inúmeras presidiárias são afastadas dos seus filhos, assim que eles nascem.  Esse afastamento é uma punição desproporcional a qualquer crime. Penso na Olga Benário, que teve a sua filha arrancada de seus braços e que nunca mais a viu.  A energia negativa que esse ato carrega deve ser prejudicial a todas nós.
Penso nas mulheres que são levadas à se prostituírem contra a sua vontade. Penso nas que sofrem violência doméstica, ou na rua, ou no trabalho. Penso nas que sofrem violência obstetrícia, num hospital ou numa clínica.
Penso nas mulheres queimadas na inquisição, sob a alegação de que eram bruxas. 
- Por que tantas mulheres foram queimadas? Por que tanta violência contra a mulher? O que a existência das mulheres ameaçavam e ameaçam?
De acordo com os livros de história, o fato de as mulheres da época da Inquisição terem conhecimento de ervas medicinais, de curas, de rezas, ou quaisquer coisas de místicas ameaçavam a Igreja. Ou seja, a ligação das mulheres com a natureza ameaçavam o maior poder da época. Quanto conhecimento intuitivo foi levado para a fogueira. A Igreja temia o poder feminino, que foi considerado demoníaco pela “Santa” Inquisição. 
A permanente violência contra a mulher, ao longo dos anos, continua suprimindo o nosso poder. De modo que, a esta altura, a supressão do poder feminino está interiorizada, ameaçando o reconhecimento e o exercício do poder pela mulher. 
Fingir que essa violência não existe propaga a ideia de que o poder feminino deva continuar suprimido e é visto, muitas vezes, como fraqueza. 
Além disso, as manifestações físicas da natureza na mulher têm sido rotuladas como algo negativo, que devem sofrer intervenções e ser evitadas.
Acredito que o poder feminino busca manifestar-se mensalmente, porém, o nosso afastamento da natureza e da nossa própria natureza induzem muitos a interpretar isso como um fardo e o denominam de tensão menstrual. 
Rogo que resgatemos o domínio sobre o nosso corpo, o poder do nosso corpo e sobre o nosso corpo, e, que exploremos o nosso poder único, que adormece dentro de cada uma de nós. 
Acredito que parir seja uma forma natural de entrar em contato com esse poder. 




05 de abril de 2015
21 semanas
A gravidez e a vontade de parir estão constantemente me fazendo refletir sobre o poder feminino. Não estou falando somente do poder de parir, mas do poder de nos resgatar das nossas armadilhas, das expectativas dos outros, ou mesmo de um destino que não é o nosso. 
Há diversas crenças sobre o destino das mulheres, como por exemplo: “toda mulher tem que ter filhos para ser feliz.” 
Uma receita igual para todas não pode dar certo. O poder feminino está em perceber o que é importante para cada uma e não em cumprir o suposto destino da maioria. 
Acredito que esse poder dependa do exercício contínuo de cada mulher salvar-se a si mesma, ao invés de esperar que alguém a salve e a faça feliz.




12 de abril de 2015
22 semanas
A minha barriga já é perceptível a olho nu, mesmo de roupa. Ao que parece, o corpo da grávida estabelece uma conexão diretamente com uma espécie de paz de cristo.
Não preciso dizer que deixei de receber aquelas cantadas prosaicas e olhares libidinosos ao passar por um grupo de homens; é como se o meu corpo fosse reconhecido finalmente como o templo da alma e não mais objeto de desejo de transeuntes; é como se eu tivesse adquirido o incrível poder de cativar esses olhares e lhes mostrar que o corpo é um santuário, devendo ser tratado com o máximo de respeito e compaixão. 
Cada vez que saio de casa, uma empatia ganha espaço ao meu redor, como se o mundo tivesse evoluído, numa escala progressiva inimaginável. Não importa se as pessoas estão com pressa, ou se estão atrasadas para o trabalho, pois ao identificarem a gestante, praticamente ninguém hesita em oferecer ajuda, ou um olhar, que seja. 
Basta eu entrar num ambiente qualquer, transporte público, banco, ou repartição pública, que logo um ser humano gentil me dirige palavras de cuidado.
Por esses dias, peguei um ônibus em Icaraí, em Niterói, para Botafogo, no Rio. Estava tão sonolenta que cochilei no ombro do senhor ao meu lado. Devo ter dormido um hora, porque acordei sem saber onde estava. Olhei ao redor e não reconheci coisa alguma. Já havia anoitecido. Senti que estava sonhando. Foi engano. Estava acordada e amedrontada. O senhor, ao meu lado, percebeu e logo perguntou se eu precisava de alguma coisa. Eu lhe disse que não sabia onde estava, que teria que ter descido em Botafogo. 
- Esse ônibus não passa por Botafogo. Estamos na Avenida Brasil - ele disse. 
Foi quando me dei conta que havia pego a condução errada. Sentindo um certo nervosismo, abri a bolsa para saber se eu tinha dinheiro suficiente para pegar um taxi. Não tinha nem o suficiente para pegar outro ônibus. Por sorte, tinha o cartão bilhete único com crédito para pagar a passagem novamente.
- Calma. É só você atravessar a Avenida Brasil, andar dois quarteirões para a direita e pegar o ônibus para o centro do Rio, que passa por Botafogo. Tem uma passarela logo ali - informou o senhor, acionando o botão de parar.
Meu rosto estava provavelmente demonstrando tensão. Embora o senhor devesse continuar no ônibus, desceu também, atravessou a passarela comigo e me acompanhou até o ponto e esperou a chegada da condução.
- E o senhor para onde vai? - perguntei, enquanto esperávamos o ônibus.
- Vou voltar para Av. Brasil e pegar o ônibus para casa.
- Eu gostaria de poder pagar a sua passagem, mas não tenho dinheiro aqui. 
- Filha, a gente está na Terra para ajudar uns aos outros. Hoje foi o meu dia de ajudar. Está tudo bem.
Fiquei emocionada com tamanho cuidado. Peguei o ônibus e fiquei ali sonhado acordada, renovando a fé na humanidade.



19 de abril de 2015
23 semanas
O humor da grávida é flutuante ao extremo. Numa semana sinto uma conexão com a humanidade; na outra, sinto uma dissimulada separação tomar forma entre nós. 
Aquele ser humano, que parecia cuidadoso, torna-se excessivamente protetor, levando a grávida a um campo minado de perigo. Assim veem os olhos desta semana.
O diálogo começou com um convite, na fila do banco: “sente aqui, é mais confortável”. No intuito de garantir a proteção, passa a mão da barriga da gestante como se fosse a barriga do Buda, além de discorrer um pacote de conselhos: 
- Hoje em dia, a mulher não precisa mais correr riscos para botar uma criança no mundo. A ciência está aí para manter o perigo longe da gente. Você não tem medo de se arriscar? 
Não respondo. Fico calada, visualizando um abismo formar-se entre mim e o mundo e tentando, ao mesmo tempo, pensar em outras coisas. 
A inquietação, porém, não dá trégua, e enquanto estou sendo atendida pelo caixa, busco descobrir por que a conversa me incomodou tanto, por que simplesmente não conseguia esquecer a pergunta de uma pessoa desconhecida, que provavelmente nunca mais iria ver.
Saí do banco, mas o episódio não saia da minha cabeça. Passei o dia remoendo o assunto, até que resolvi escrever o que estava sentido. Foi quando   me vi refletida ali naquela situação, lembrando que também já quis convencer as pessoas do melhor a se fazer e, possivelmente, provoquei nelas a formação do abismo entre nós. Para aumentar a minha tortura, lembrei o quanto muitas vezes nós mulheres pegamos pesado umas com as outras, em especial no quesito maternidade.
Senti vontade de voltar ao banco e me encontrar com aquela criatura e dizer: “já sei, você também quer o melhor para mim, mesmo sem saber o que é melhor um para o outro.” Embora isso não fosse possível, desejei, do fundo do meu coração, renovar os votos com o mundo, sem deixar que o humor, meu ou o de quem quer que seja, controle os meus sentimentos.



26 de abril de 2015
24 semanas
Conforme as semanas passam, observo novas mudanças no corpo. A pele da barriga estica cada vez mais, as veias ressaltam, a virilha é pressionada constantemente; acho que sinto contrações de treinamento; só é possível dormir de lado, a coluna reclama alguns direitos e a postura, muitas vezes, é relegada ao segundo plano. 
Como será depois do parto? Para início de conversa, para onde vai essa pele esticada da barriga? Desde já tento me convencer de que a aparência física é só um disfarce, pois pretendo continuar uma mulher entusiasta e interessante. 
Um assunto discutido frequentemente, no encontro de grávidas, é o pós-parto, também chamado de puerpério. A maioria das mulheres expõe as dificuldades iniciais da amamentação, das sensações pessoais provocadas pela variação hormonal e pela perda da beleza física. 
- Parir é fácil. Difícil é o pós-parto. O glamour envolta da amamentação cai por terra na primeira semana após o nascimento do bebê - diz a maioria das pessoas no encontro. 
- Para o sucesso na amamentação, o bebê deve abocanhar o mamilo de uma forma específica, caso contrário, a mãe pode ser levada equivocadamente a crer que o bebê não quer mamar no peito - acrescentam elas. 
Diante das dificuldades, a maioria das mulheres diz que amamentar exige paciência, orientação e persistência, porque dói e pode machucar os seios, a ponto de sangrar. Passada essa fase, sentiremos prazer em amamentar, elas informam. 
Além disso, elas dizem que o pós-parto é uma espécie de prova para ver se o marido e a mulher se amam de verdade, porque as prioridades e importância das coisas mudam. 
Contrastando com o período exuberante da gravidez, no qual o corpo naturalmente encarrega-se de tudo, o pós-parto exige da mulher um esforço sobre-humano para corresponder com as expectativas nutricionais do novo ser e continuar cuidando de si própria. Nesse período, o corpo da mulher parece não lhe pertencer. 
Tanto as mulheres quanto os próprios parceiros enfatizam a importância dos cuidados que os parceiros e parceiras devem ter com as mulheres recém-paridas. 
A cada encontro, vemos mais homens e mulheres, manifestando os sentimentos de alegria, angustias e medo em relação ao nascimento do filho. É gratificante participar dessas rodas. 



01 de maio de 2015
24 semanas e cinco dias
Recentemente tive que fazer o exame de sangue para diagnosticar eventual diabete gestacional. Não temo o resultado. Tenho hábitos saudáveis e custo a crer que minha glicose venha a se alterar. De toda forma, fiz o exame.  
Antes de sair para fazer o exame, porém, tomei um susto. Quando fui ao banheiro e baixei a roupa íntima, vi um corrimento viscoso e espesso, sem cor e inodoro, como nunca tinha visto antes. Já tinha ouvido falar do tal tampão mucoso, no encontro de grávidas, e a aparência do que vi tinha as características do tampão. 
Fiquei tão surpresa que sem pensar, enviei uma foto daquela cena para minha doula e escrevi uma mensagem para minha médica. 
- Seria isso início de trabalho de parto prematuro? - eu me perguntei, enquanto me comunicava por WhatsApp com as profissionais de saúde.  
- Se não há cheiro nem cor, não há o que se preocupar - ambas responderam. 
Então, meu medo não teve tempo hábil para atuar, e me mantive a calma, apesar do susto inicial. Fiquei contente, porque tudo me leva a crer que a segurança interna tomou as rédeas da situação, mantendo o coração e a mente em harmonia.




03 de maio de 2015
25 semanas
Se a minha barriga continuar crescendo na proporção que está, acho que vou flutuar como um balão. O corpo não faz qualquer cerimônia, vai aumentando e eu que me esforce para manter o equilíbrio. 
Além de equilíbrio, preciso de coragem para realizar os meus sonhos. Quando o medo aparece, explico isso a ele. Podemos conviver com o nosso medo, que tem um propósito de sobrevivência. Mas ele não foi feito para impedir nossos sonhos. O estudo sobre o parto tem sido um bom exercício de como me preparar para realizar outros sonhos.  
A barriga também parece uma bola de cristal. Ela me ajuda a ver e admirar melhor as pessoas, aliás, o mundo todo. Por isso, desde que engravidei, sinto constantemente a gratidão ecoar aqui dentro. 






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