quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Gravidez aos 40: empoderamento/ escolhas

17 de maio de 2015
27 semanas
Mais uma vez estou aguardando ser chamada para fazer uma ultrassonografia.  Essa será para medir a maturidade da placenta. Meu coração diz que está tudo bem. 
Nós grávidas gastamos bastante do nosso tempo nas antessalas dos consultórios e laboratórios. Por lá já escutei que alguns médicos padronizam a mulher de mais trinta e cinco anos grávida como uma gravidez de risco. Essa afirmação é tão difundida que eu mesma inicialmente acreditava que, para a gravidez de uma mulher de quarenta anos, a cirurgia cesariana seria o mais indicado e seguro. 
- Se fosse mais seguro mesmo, por que os países mais desenvolvidos, como Alemanha, Dinamarca, Reino Unido, França, Austrália, Nova Zelândia e tantos outros, incentivam o parto normal para todas as mulheres? Nesses países, a cesariana é uma cirurgia de emergência. Se fosse mais seguro, a Kate Middleton teria arriscado o nascimento de herdeiros do trono britânico num parto natural? - eu me questiono internamente. 
Nessas antessalas, não há tempo para uma conversa mais aprofundada. Por isso, na oportunidade que tive, perguntei à nova médica como ela via a gravidez de uma mulher de mais de quarenta anos. Ela me informou que cada caso é um caso, e, que os exames de pré-natal indicam se a gravidez é de baixo, médio ou alto risco. Uma gravidez de baixo risco independe da idade da gestante. 
- A cirurgia pode vir a ser necessária, caso o trabalho de parto não evolua, provocando alteração no estado de saúde do bebê, mas isso independe da idade. No entanto, isso é mais raro de acontecer. A maioria das mulheres é capaz de parir - a médica também esclareceu. - Hoje em dia, a cesária é também uma opção da mulher. Essa opção deve ser respeitada, se esse for o desejo íntimo dela, com toda a informação que lhe foi dada. O que não pode é a mulher ser induzida a fazer o que não quer - complementou a médica, e eu concordei.
Os resultados dos meus exames estão dentro dos patamares do baixo risco. E, no que depender da minha alimentação e condição física, assim vão continuar. Eu me sinto saudável, apesar do histórico de perdas e ando, com o aval da médica e com os resultados dos exames, decretando-me uma grávida de baixo risco. Minha placenta vai muito bem. Obrigada.




24 de maio de 2015
28 semanas
Enquanto estou em busca do melhor parto possível para mim, observo que dois sentimentos parecem dominar a sociedade atual: o medo e a culpa. 
Quando conversamos com os amigos sobre as possibilidades de parto em geral e citamos o parto domiciliar, alguém logo pergunta: 
- Mas você não tem medo de algo dar errado?
- No hospital também algo pode dar errado, contestamos, e imediatamente ouvimos:  “mas a culpa não é sua”. 
Obviamente meus pensamentos já aventaram a hipótese de algo dar errado. No entanto, se eu me permitir sonhar acordada, sem a maré de pensamentos negativos, o melhor parto seria o parto domiciliar, porque nada mais confortável e seguro, para mim, do que estar em casa com as pessoas que amo. Mas para isso, eu teria que ter coragem de bancar essa escolha e até agora não tenho. Admito.
O parto humanizado hospitalar parece-me a opção mais respeitosa e segura. Aqui eu me contradigo. Estou mais segura em casa ou no hospital? No meu íntimo, eu me sinto mais segura em casa. 
Antes de engravidar, eu pensava que ter um parto normal era uma consequência natural de estar grávida, como ocorreram com nossas ancestrais. Conversando com as pessoas e refletindo sobre os meus sentimentos e emoções, observo que o nosso afastamento da natureza fez com que desaprendêssemos e até desconfiássemos do ato natural de parir. Por isso, é mais fácil optar por parir no hospital, confiar em remédios, porque o conjunto de padrões bem vistos pela sociedade oferece uma garantia aparente de segurança. 
Por que não fazemos o que sabemos que é preciso fazer, deixando de lado a suposta segurança de fora e nos apegando à segurança interna? Por que nos negamos a ouvir a sábia voz interior?
Talvez a surdez, que surgiu no início da gestação, seja uma forma de me obrigar a ouvir a voz interna, ao invés de dar ouvidos demais aos outros.




31 de maio de 2015
29 semanas
Caminho para acalmar a mente e evitar que o medo me controle como quase o fez no início da gestação. O medo ainda tenta me convencer dos riscos da incerteza. 
Ontem mesmo sonhei que ele me escreveu uma carta, dizendo que havia substituído o temor da perda pelo temor de não conseguir parir. 
Quando acordei, respondi a carta.  Primeiro eu o agradeci pela preocupação. Em seguida, expliquei que parir é natural e, praticamente, involuntário, como os pensamentos, e que ele ficasse tranquilo porque nós vamos sobreviver e quem sabe até gostar de parir! Não sei se meu medo acreditou no que eu disse, mas ele se acalmou. 
Essa semana, caminhei na praia, sentindo a água do mar bater gentilmente nos meus pés. Em algum momento, enquanto retornava para casa, pelo calçadão da praia de Itaquatiara, o fluxo de pensamentos intensificou-se de tal maneira que parei no meio do caminho, atrapalhando a passagem. Mas acredito ter tido um insight
Observei que a corrente de pensamentos é tão intensa que parece não haver tempo para decidir o que pensar. 
- Sou capaz de decidir o que penso? - eu me pergunto. 
- Posso até não ser capaz de decidir o que penso, mas posso decidir no que acredito! - respondeu a minha voz interna. Quando entrei em casa, escrevi, ponto a ponto, o que acredito.
Acredito que eu possa ser minha amiga tanto quanto sou das minhas amigas e agir de forma carinhosa comigo mesma, ao invés de me encher de pensamentos negativos, capazes de destruir minhas relações.
Acredito que os nossos sentimentos sejam contagiosos. Podemos ser contagiados por tristeza, raiva, mas também podemos ser contagiados por amor, alegria, generosidade, gratidão e tantos outros. 
Acredito que a vida é a nossa melhor amiga e tudo que acontece com ela é para nos melhorar.
Acredito que a vida aqui na Terra é um milagre e que nós somos seus hóspedes.
Acredito apaixonadamente que todos os seres podem ser felizes.
Acredito que não podemos controlar o que nos acontece, mas que podemos escolher como interpretar e como reagir aos acontecimentos.
Acredito que o corpo é a máquina sutil mais inteligente que existe.
Acredito que parir é natural e involuntário, como o amor. Por isso, nascer é um verbo intransitivo.
Acredito que o trabalho de parto é um relacionamento - uma interação entre a natureza e o esforço pessoal. Sobre metade dela, você não tem o menor controle, mas a natureza costuma ser perfeita, ela vai realizar a parte dela da melhor forma possível; a outra metade está completamente nas suas mãos; você pode não saber exatamente como, mas vai receber as indicações da graça divina a realizar esse grande feito, que é o nascimento, e que deve valer o esforço. 
Acredito que cada pessoa saiba, dentro dela, o que é melhor pra si.
Acredito que o que acredito tem uma forte influência sobre o que acontece.
Acredito em Deus. Sei que, para alguns, o fato de crer em Deus nos associa de imediato a padrões de conhecimentos inferiores. Não me importo. Tenho fé. 
Acredito que meditar faz bem, mas amar o que o mar traz a praia faz melhor ainda.
Acredito que parir é poder, que parir é prazer, que autonomia sobre o corpo é também poder.
Acredito que o amor é o que nos conecta com o mundo.
Acredito que adotar é doar um amor interconectado por vasos comunicantes invisíveis.
Acredito que se não estou criando algo, possivelmente estou gastando a minha energia implicando com algo, ou destruindo algo.
Acredito que é possível transformar um evento ruim numa experiência incrível e que isso é a magia da vida.
Acredito que nós mulheres temos um poder a ser desvendado e explorado.




07 de junho de 2015
30 semanas 
Durante as minhas caminhadas diárias, tenho imaginado que tipo de mãe eu serei. Não estou falando somente de como educar filhos. Pretendo ser uma mãe que também tem vida própria. Sei que há mães felizes que vivem só para os filhos. É compreensível, pois o amor que sinto, desde já, é tão nutritivo que é capaz de por em xeque todas as outras relações, até a relação comigo mesma. 
Imagino que seja complexo saber, depois que o bebê nasce, onde o nosso eu começa, onde ele termina e para onde ele está indo. Tenho observado que o amor entre mãe e filho é progressivo e margeia o desvario.
Observo que não será fácil estabelecer um território particular onde eu exista na minha inteireza sem me confundir com esse novo amor. Por isso, eu me esforço para criar um cantinho particular onde eu me reconheça, diante da imensidão da maternidade. 
Porque é tão frequente, mulheres - em particular, mães com crianças pequenas - desistirem de si mesmas. 
É comum ouvir mulheres dizerem que já estão velhas demais para mudar de vida, ou para viver um novo amor, ou que não são suficientemente capacitadas para outro trabalho, embora tenham todas as qualificações necessárias para exercê-lo. E depois de renunciarem ao mundo, vem a renúncia a si própria.
Sob nenhuma hipótese, estou falando de deixar os filhos de lado nem tampouco estou falando de fazer o caminho de Santiago, ou algo extraordinário como viajar pelos lugares que uma vez sonhamos. 
Estou falando do cuidado consigo mesma, antes que a vida chegue ao estado no qual só o outro importa. 
Por isso, quero continuar tendo projetos pessoais. Isso será bastante saudável para mim e para que a minha cria possa ser livre, senão corro o risco de me apegar a ela de tal modo que nenhuma de nós consiga voar sozinha, quando chegar a hora. 
Ainda que eu fracasse nos meus projetos, eles continuarão existindo, porque eles têm o poder de tirar o peso das expectativas que tenho em relação a tudo e a todos. Não me importo de fracassar, porque o fracasso tem a missão de nos ensinar a lidar com as nossas frustrações e a plantar esperança no que acreditamos. 




14 de junho de 2015
31 semanas (plano de parto)
O meu projeto mais recente é estudar como desejo o meu parto. Por enquanto, posso imaginá-lo como melhor me agrada!
Em conversa, no grupo de gestantes, aprendi que é adequado e estimulante registrar como queremos que o parto seja. Cada gestante deve anotar os anseios e expectativas do seu pré-parto, do parto e do pós-parto. 
Em outras palavras, devemos escrever o nosso plano de parto, que chamei de sonho de parto, e mostrá-lo ao parceiro, à doula e ao médico. Assim, ficam todos cientes de como a gestante espera que o parto seja conduzido.
Em razão dos relatos de parto que presenciei no grupo de grávidas, observei que é importante aguardar um pouco em casa a evolução das contrações do trabalho de parto, ao invés de, ao primeiro sinal, sair correndo para a maternidade. O intuito é relaxar bastante antes de sair de casa, ou evitar sair de casa sentindo contrações de alarme falso, conhecidas como pródromos. Então, registrei que gostaria de ficar em casa o maior tempo possível. 
Algumas mulheres, em seus relatos, contaram que passaram mal por terem se submetido ao jejum, imposto no hospital. Quando ouvi isso, combinei com o meu marido que levaríamos acepipes na bolsa. 
Eu havia combinado com a nova médica que não queria anestesia, ocitocina sintética nem episiotomia. As duas primeiras, abriríamos exceção, caso se mostrassem necessário para dar continuidade ao trabalho de parto, evitando uma cesariana. Porém a episiotomia estava fora de cogitação; se a saída do bebê provocasse laceração, a médica repararia, conforme fosse o caso. 
Pedi também que o cordão umbilical somente fosse cortado, depois que ele  parasse de pulsar por completo, deixando o sangue nele contido retornar para o bebê. Eu havia lido que esse sangue contém substâncias importantes para imunidade da criança. 
Solicitei que o bebê fosse mantido comigo o tempo todo. Pretendo evitar que o bebê seja posto numa incubadora sem a real necessidade. Observo que, hoje em dia, quando se visita uma mulher e seu bebê na maternidade, o bebê está na incubadora, enquanto a mãe está isolada no quarto. Já houve caso de mulheres que mal viram o rostinho do filho. Pretendo, com todo o meu ser, evitar essa situação, deixando a incubadora só para o caso de comprovada necessidade. 
Escrevi, portanto, as listas abaixo, para registrar as minhas escolhas, de modo a não deixar dúvidas a ninguém.
Pré-parto:
a) Pretendo aguardar em casa o maior prazo possível antes de sair para o hospital. No hospital, se observarem que não é hora, quero poder voltar para casa, se a médica julgar sem riscos;
b) Não funciono bem de jejum. Por favor, deixem-me comer um pouco. Se eu vomitar, a minha doula e o meu marido limpam o vômito;
c) Por favor, só usem ocitocina sintética e anestesia em caso de emergência. Nunca tomei anestesia nem remédio na veia. Por isso, acredito que é melhor evitar surpresas;
d) por favor, sejam carinhosos, não empurrem a minha barriga;
e) gostaria de evitar o exame de toque. Só gostaria de fazê-lo, se for realmente necessário;

Parto:

a) Para ouvir os comando do corpo, preciso do silêncio. Por isso, peço a gentileza de não haver música, nem muita conversa, seja pessoalmente ou por celular;
b) Se for possível, gostaria que o ambiente tivesse pouca luz;
c) Preciso de liberdade de locomoção. Por favor, deixem-me escolher a posição que eu me sinta mais confortável;
d) Gostaria de poder ter a liberdade para usar a banheira e/ou chuveiro;
e) Por gentileza, evitem citar as palavras medo e dor. Também evitem falar "coragem", "está quase", "vamos", "força" etc. Acho que isso pode me atrapalhar.
f) Desejo que deixem a bolsa estourar naturalmente. Não quero apressar nada;
g) Peço a gentileza de não fazerem puxo dirigido, nem manuseiem o meu corpo sem conversar antes;
h) Por favor, deixem a minha vulva em paz! Ela não faz mal a ninguém; ela só quer o bem. Por isso, não quero que façam episiotomia. Se lacerar, a médica terá o cuidado de dar uns pontinhos. Já conversamos sobre o assunto.
i) Acesso na veia só em caso de emergência, pois tenho uma forte agonia de agulha;
j) Qualquer necessidade de intervenção, por favor, vamos conversar, sou compreensiva. Salvo medidas de emergência, em caso de vida ou morte, nas quais o tempo urge, então, nesses casos, façam o que for necessário;
l) Em caso de desmaio ou inconsciência, o meu marido saberá o que dizer no meu lugar, ele me conhece bem.
Pós-parto:
a) Desejo deixar o cordão umbilical pulsar até o final, para que o sangue contido ali retorne ao bebê. Basta só um pouquinho de paciência; vai ser breve. 
b) Pretendo aguardar a dequitação espontânea da placenta, exceto se houver hemorragia. Nesse caso, que sejam tomadas as medidas necessárias. Mas por favor, sejam carinhosos, pois ando bastante sensível;
c) Ao passar pelo canal vaginal, os pulmões do bebê são massageados, ocorrendo a expulsão dos  líquidos naturalmente. Por favor, só aspirem o bebê em caso de real necessidade. Acho que posso ficar brava, se fizerem algo desnecessário;
d) Por favor, deixem o bebê comigo, ou com o pai. Isso significa manter o bebê no quarto e não na incubadora. Isso não é pedir muito;
e) A mãe é o alimento do bebê! Somente se o leite materno não descer, deverá ser dado um complemento alimentar. Porém já me comuniquei com as glândulas mamárias e com a consultora de amamentação; elas estão a todo vapor, preparando um balceiro de leite e uma boa orientação, respectivamente. Por isso, acredito que o complemento não será necessário;
f) Por favor, nada de aplicação de colírio (nitrato de prata) no bebê. Deixem os olhinhos do neném virem o mundo ao seu redor;
g) O primeiro banho será dado pelo pai. Eu já prometi ao meu marido. Por favor, compreendam.
h) Em caso de desmaio ou inconsciência de minha parte, repito: meu marido me conhece bem e saberá responder por mim.
i) Tudo que eu peço é um pouco de carinho e uma pitada de paciência. Quem não gosta de ser tratado com carinho?

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